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02-Nov-2006

BUSH EXPLOROU O 11 DE SETEMBRO PARA APLICAR UMA POLÍTICA "PSICÓTICA"
gorevidalO escritor norte-americano Gore Vidal deu uma entrevista no início de Outubro de 2006 à Agência France Press que aqui reproduzimos.
Em 2002 afirmou que Bush sairia da Casa Branca como o presidente mais odiado da história americana, agora reafirma: "Demonstrei ser um profeta".
Sobre as eleições presidenciais americanas de 2000 é peremptório: "foi um golpe de Estado. Não é uma hipérbole, não é um exagero, são os factos".

O escritor americano Gore Vidal tem sido um dos mais fervorosos críticos do establishment norte-americano contemporâneo e, aos 81 anos, o "enfant terrible" da cultura americana destila como nunca a sua mordacidade. Sessenta anos depois de ter lançado o livro "Williwaw" e começado uma carreira que inclui 35 romances, cerca de 20 roteiros e dezenas de ensaios, a voz de Vidal continua a fazer eco.

Numa extensa entrevista à AFP, Vidal revela que algo muito simples explica o seu longo activismo: "o estado da união. Perdemos a República, foi-se", afirmou, suspirando, antes de disparar: "e isto ocorreu em cinco anos, à raiz de um grande golpe de Estado".

Este ano, ele foi um colaborador de luxo em dois filmes - "The US vs John Lennon" e "Global Haywire" -, enquanto as livrarias abrem espaço para a sequência das suas memórias que serão lançadas no próximo mês. Vidal também deu o seu apoio ao movimento World Can't Wait (O Mundo não pode esperar), que reivindica a renúncia imediata do presidente George W. Bush.

O seu frágil estado de saúde forçou-o a abandonar, contra a sua vontade, o seu "palazzo" em Ravello, nos arredores da cidade italiana de Nápoles, onde viveu 32 anos, para se radicar em Los Angeles (Califórnia, oeste). Agora, vive nas colinas de Hollywood num casarão com jardim sempre ensolarado e salas lotadas de livros e móveis antigos. Ali, poucos dias depois de completar 81 anos, as opiniões radicais que o caracterizaram ecoam na sua fase mais incendiária.

Não surpreende ouvi-lo dizer que Bush chegou à Casa Branca graças a um golpe de Estado e que a guerra contra o terrorismo é um recurso totalitário planeado com premeditação e deslealdade para manter a população assustada.

Para Vidal, Bush é o culpado de tudo, e ao ser consultado se ainda sustenta o que disse em 2002, que Bush deixaria a Casa Branca como o presidente mais impopular da história americana, afirma: "Usei uma palavra mais forte, disse o mais "odiado". Demonstrei ser um profeta".

Ele sustenta com estatísticas que a apatia política coloca o país em risco, mas ao mesmo tempo diz acreditar que esta não é uma situação irreversível. "O fogo está a arder neste momento. As pessoas estão a começar a entender, devagar. Mas é muito difícil quando o outro lado controla os meios de comunicação. O povo não tem qualquer meio para descobrir o que de ruim está a acontecer", explica. Até mesmo o cinismo dos eleitores é compreensível para ele.

"Os nossos partidos políticos são, nas palavras do presidente John Adams, facções. São conspiradores para ganhar o poder das grandes administrações do Estado. Portanto, as pessoas não vêem nenhuma razão para votar, a não ser que se apresente a elas um assunto quente, como a raça ou o sexo. E então tudo fica absurdo", acrescenta.

O escritor diz-se convencido de que o actual governo explorou os atentados de 11 de Setembro de 2001 para empreender uma política "psicótica". "Depois do 11 de Setembro, cada televisão, cada rádio dos Estados Unidos tem declarado: ‘Não se trata de se vão nos atacar ou não, mas quando! ‘", denuncia o autor, que também se aventurou na dramaturgia.

"E agora Bush diz, ‘temos que combatê-los lá para não termos que combatê-los aqui'. Como se Saddam Hussein fosse entrar em um barquinho e remar até os Estados Unidos para começar uma guerra connosco!", ironiza.

"Manter as pessoas assustadas foi um grande truque totalitário aprendido das ditaduras europeias dos anos 1930", continua. Vidal admite estar assustado com o estado do mundo: "Estou alarmado. Seria um idiota se não estivesse".

A noção de que o cristianismo está ameaçado por um confronto teológico com o Islão radical é uma posição, sobretudo, de desprezo, afirma. "Bush finge que somos uma república cristã e que estamos numa guerra de culturas entre o mundo cristão e o mundo muçulmano, quando não somos tão cristãos nos Estados Unidos e, portanto, não há razão, em nenhum caso, para uma guerra" neste tema, sustenta.

Gore Vidal dirige as suas críticas à política de Bush, mas mantém distância das teorias conspiratórias que circulam na Internet, segundo algumas das quais os ataques de 2001 foram tramados pela Casa Branca. "Bush nunca teria podido fazer explodir as torres. É incompetente demais", afirma. "Tudo o que ele toca é um desastre" e os atentados de 11 de Setembro foram "maravilhosamente executados nos Estados Unidos, para além da sua capacidade".

Por último, critica o mundo por ter demorado a reagir e a entender o que aconteceu nos Estados Unidos depois das eleições de 2000, que ele insiste ter sido um golpe de Estado tornado possível por uma fraude eleitoral. E declara, taxativo: "foi um golpe de Estado. Não é uma hipérbole, não é um exagero, são os factos".

 
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