O silêncio dos neoconservadores portugueses criar PDF versão para impressão
03-Nov-2006

João Teixeira LopesOs neoconservadores portugueses, tribo fortemente implantada nos jornais de referência, particularmente no Público, com troncos na casa civil da Presidência da República e na direcção de uma revista (A Nova Cidadania, de fraquíssima implantação e tiragem, vá-se lá saber quem financia tal desastre editorial e financeiro...), mostram-se, nos tempos mais recentes, de uma pacatez inquietante.

Na verdade, o seu silêncio é duplo. Uma das dimensões da mudez é já antiga: calam-se os desígnios de tais gargantas tão dadas ao proselitismo da Civilização Ocidental (e nunca, como neles, o conceito de Civilização se revelou tão etnocêntrico e excludente) quando se multiplicam as informações do terror que os americanos infligem em Guantanamo; quando Dick Cheney, Vice-Presidente da administração Bush, defende os exercícios de simulação de afogamento como dispositivo essencial para obrigar os detidos a falar; quando se acumulam provas de utilização criminosa de armas químicas letais, como aconteceu em Faluja, autêntica carnificina do século XXI que faria chorar de vergonha qualquer ser humano que tivesse apoiado Bush e o aparelho industrial-militar do império. É tempo de os questionar, ufanos defensores dos direitos humanos e da democracia: onde está a vossa coerência e sentido de humanidade? Onde, José Manuel Fernandes; Helena Matos; Pacheco Pereira; João Carlos Espada; Maria Filomena Mónica; etc. - onde?

A outra dimensão do silêncio é mais recente. Perante o atoleiro em que os americanos transformaram o Iraque - envolto na tragédia diária, na multiplicação de fanatismos, na banalização da guerra civil - os mestres americanos dos novatos neoconservadores portugueses admitem já todas as hipóteses, inclusive as modalidades de uma saída «honrosa» (sabe-se, desde o Vietname, que tal expressão é eufemismo de «conter os danos da derrota») ou, «pior», propostas de envolvimento de duas potências regionais que ganharam força com a derrota de Israel no Líbano: a Síria e o Irão, maléficos membros - lembram-se? - do «eixo do mal».

Ambos os silêncios permitem, como sempre, uma grande variedade de leituras. Mas, acima de tudo, fornecem-nos uma ideia razoavelmente sedimentada do nível de honestidade intelectual destes beligerantes retóricos.

 
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