"A resistência deve ser a nossa escolha estratégica" criar PDF versão para impressão
25-Jan-2009
Nassar Ibrahum defende a reistência em oposição ao colaboracionismo da Autoridade PalestinianaDepois desta guerra, a divisão já não é entre a Fatah e o Hamas, mas adquire outro significado: será a divisão entre a escolha de resistir contra a ocupação e uma aceitação passiva das condições políticas de Israel e dos EUA

Entrevista com Nassar Ibrahum, Director Político do Centro de Informação Alternativa. Tradução de Joana Valdez para o Esquerda.net  

O que é que se passa na Cisjordânia em relação ao ataque israelita a Gaza? Porque é que a reacção não é assim tão forte?

A reacção na Cisjordânia é fortemente afectada pela divisão interna da Palestina: o poder na Cisjordânia é actualmente detido pela Fatah e pelas Autoridades Palestinianas. Pouco depois da eleição de 2006, nas quais o Hamas venceu, o antagonismo entre o anterior governo da Fatah e o novo governo Hamas veio ao de cima. Esta oposição pode ser vista como a diferença entre duas escolhas estratégicas: aquela representada pela liderança da Fatah e apoiada por muitos regimes árabes leais ao poder dos EUA, que vê negociações de paz e o envolvimento de instituições internacionais como a única forma para resolver o conflito Israelo-Palestiniano. A outra estratégia é o movimento de resistência, recorrentemente conduzido pelo Hamas com a participação de grupos esquerdistas (PFLP, DFLP), as brigadas da Fatah al Aqsa, a Jihad Islâmica, etc.

Quando Israel atacou Gaza, há 20 dias atrás, a posição política da Autoridade Palestiniana na Cisjordânia foi clara: "não fazemos parte deste ataque". Como tal, estão a utilizar todo o poder para manter a Cisjordânia o mais calma possível, empregando polícias palestinianos, de forma a prevenir quaisquer confrontos entre manifestantes palestinianos e soldados israelitas. Como resultado desta política, as reacções na Cisjordânia não são suficientemente fortes.

Tal como anunciou a própria Livni por diversas vezes, o ataque a Gaza, que é um massacre, um genocídio, não está a ser levado a cabo para derrubar o Hamas ou para parar o lançamento de rockets: estão a atacar Gaza para destruir qualquer grupo ou qualquer movimento palestiniano que veja a resistência como a principal forma de fazer face à ocupação Israelita. Apenas livrando-se do movimento de resistência palestiniana é que Israel vai conseguir impor as suas condições sobre a mesa.

A liderança da Fatah na Cisjordânia devia tomar medidas concretas contra a ocupação e não deve fornecer qualquer cobertura política para a agressão de Israel a Gaza. Pelo contrário, a Autoridade Palestiniana actua como mediador, como o Egipto e outros regimes árabes, em vez de pressionar directamente Israel enquanto a resistência luta para impedir que Israel atinja sucessos reais. Manter a Cisjordânia calma é uma grande ajuda para Israel, tal como para outros regimes Árabes que não tomam fortes posições contra o ataque. Esta situação confere a Israel mais tempo para reverter a seu favor a situação de Gaza, primeiro militarmente e depois politicamente.

...nesta perspectiva, o papel da Autoridade Palestiniana já não é apenas uma "posição moderada" mas de conivência real com o ataque Israelita...

Claro que não é uma posição moderada, mas uma escolha política, e a Autoridade Palestiniana irá pagar um preço por isso: para os palestinianos, a guerra de Israel em Gaza é contra o direito a escolher resisitir para acabar com a ocupação.

A guerra demonstra claramente que estamos divididos em duas frentes, a frente da resistência e a frente que apoia o ataque de Israel. Qual é a posição da Autoridade Palestiniana e em que frente se encontram? E a dos regimes árabes? Quanto à última guerra no Líbano, na qual alguns regimes árabes culparam o Hezbollah, na actual guerra eles tomam o Hamas como responsável pelo ataque, apoiando assim Israel. Culpam o Hamas por lançar rockets nas fronteiras do Sul de Israel, mas isto não está correcto: durante o sexto mês do cessar-fogo, o Hamas parou com os bombardeamentos, mas o cerco continuou, e o cerco é parte de uma acção militar. Deverá permitir-se que Israel nos mate devagarinho sem qualquer tipo de reacção?

...parece outro passo na política de longo-prazo israelita de limpeza étnica dos palestinianos...

Sim, é, diz Israel que tem o direito de defender os seus civis dos bombardeamentos, mas a questão real é "porque é que estão a ocupar estes povos?" O primeiro problema é a ocupação. E também a ajuda da comunidade internacional a Israel, que em anda contribui para resolver a questão da ocupação. Com o actual ataque, Israel está a tentar esquecer a sua derrota no Líbano, mostrando ao mundo as suas armas de alta-tecnologia, utilizando-as contra cidades e pessoas desprovidas de qualquer possibilidade de fuga. Israel quer, primeiro, derrubar o Hamas, em segundo lugar pretende impedir que entrem armas nas fronteiras de Gaza, e em terceiro lugar, pretende impor uma alteração radical na situação política. Israel está a utilizar todo o seu sistema de propaganda de forma a apresentar isto como sendo uma guerra entre dois exércitos, mas de facto existe um confronto entre uma resistência palestiniana praticamente desarmada e o super poder de Israel.

Israel diz que os combatentes se escondem entre os civis, utilizando-os como escudos, mas na realidade não há qualquer distinção entre os combatentes e os restantes palestinianos porque os primeiros são os filhos, os irmãos e os maridos das mesmas pessoas que sofrem com este ataque.

A sua resistência heróica é o reflexo da resistência heróica dos habitantes de Gaza, e Israel sabe-o muito bem, sendo essa a razão pela qual matam civis indistintamente: combate-se a própria resistência, lutando contra os civis. Como consequência, não restam opções para o povo palestiniano além de lutar ou desistir.

Vejamos as consequências do designado processo de paz: Gaza está sob cerco, mas a situação da Cisjordânia, mesmo não disparando morteiros contra Israel, é praticamente a mesma (o muro, os check points, as prisões, os assassinatos). A liderança palestiniana deve parar e considerar os resultados do processo de paz, uma longa negociação com 15 anos que só tornou a situação cada vez pior.

Só a escolha da resistência pode pôr termo à ocupação. Lutando e negociando, em conjunto. Não há exemplos, na História, de um povo sob ocupação acabar com todas as formas de resistência para confiar numa negociação. De forma a atingir um resultado, os palestinianos têm de batalhar e negociar ao mesmo tempo. De outra forma começariam as negociações já derrotados e apenas podiam aceitar passivamente as condições de Israel.

Voltemos à actual divisão entre a Autoridade Palestiniana na Cisjordânia e o Hamas na Faixa de Gaza. Acredita que serão possíveis futuras reconciliações?

Depois desta guerra, a divisão já não é entre a Fatah e o Hamas, mas adquire outro significado: será a divisão entre a escolha de resistir contra a ocupação e uma aceitação passiva das condições políticas de Israel e dos EUA. Por outras palavras, os palestinianos devem desistir. Depois da guerra o mapa político será diferente: as pessoas vão escolher a resistência. Olhem para Gaza, vejam o apoio popular ao Hamas: os palestinianos apoiam a sua resistência em Gaza porque o Hamas é agora visto como um actor poderoso procurando defender os direitos nacionais palestinianos. Por outro lado, a posição política da Autoridade Palestiniana é vista como cúmplice do ataque Israelita a Gaza.

Lembro-me, inclusive, de alguns discursos dos líderes da Autoridade Palestiniana dizendo que os habitantes de Gaza teriam de ser pacientes porque a legitimidade regressaria em breve. Mas como voltarão a Gaza? Conduzindo os tanques Israelitas? Quem é que alguma vez os vai aceitar em Gaza depois de tanto sangue derramado, depois de mais de 1000 mártires e 5000 feridos, depois de toda esta destruição? A legitimidade vem da luta e não da colaboração com o invasor. Se alguma vez os palestinianos tornarem a confiar na actual liderança da Autoridade Palestiniana, será um grande erro histórico.

Qual será o papel da Esquerda Palestiniana no futuro? Poderá ser uma alternativa tanto para a liderança da Fatah como do Hamas?

Depois do colapso da União Soviética, o movimento político islâmico ganhou poder no mundo Árabe e Islâmico. A vitória da política islâmica é o resultado das políticas neo-conservadoras e do sistema de propaganda dos EUA: eles tiveram sucesso na divisão do mundo e colocando o debate entre "Este" e "Oeste". Como resultado, a maior parte das pessoas mobilizaram-se em torno dos movimentos islâmicos, vistos como a alternativa mais forte neste período da história. Isso não significa que ja não haja Esquerda: a liderança do Islão político apenas manter-se-á enquanto os movimentos islâmicos combaterem o imperialismo. Um apoio massivo aos movimentos islâmicos não significa que as pessoas aceitem as suas ideologias ou agenda social: até este ponto a luta tem sido no sentido de ganhar um nível mínimo de direitos para os povos Árabes.

As massas que se juntam nas ruas manifestam-se contra a hegemonia dos EUA no Médio Oriente, e até ao momento o movimento islâmico carrega a bandeira desse protesto. Não se encontram sozinhos, o povo de esquerda é parte desta luta. De novo, este é o ponto decisivo: a escolha entre a resistência contra o imperialismo de Israel e EUA ou a derrota - esta última é a estratégia dos seguidores das políticas de Israel e dos EUA, primeiro e acima de tudo, dos regimes Árabes aliados destes.

Quando vejo as manifestações em todo o mundo, pergunto-me: "porque é que eles estão a defender Gaza?" Apenas porque os habitantes de Gaza são seres humanos como todos os outros? Não, nós combatemos na mesma batalha, nós estamos a enfrentar as mesmas consequências terríveis das políticas Americanas no mundo: a situação de Gaza é apenas o resultado destas políticas, que estão a falhar em todo o mundo. Os EUA falharam militarmente, tanto no Iraque como no Afeganistão, e falharam economicamente como demonstra o recence colapso do sistema financeiro. Israel também falhou no Líbano, na guerra de 2006, e vai falhar novamente em Gaza. Israel e os EUA estão a pagar o preço de uma estratégia estúpida. Colapsaram moralmente. Nós vamos ensinar-lhes o que significa defender os direitos humanos.

Esta entrevista foi conduzida a 16 de Janeiro de 2009 por Enrico Bartolomei e publicada no site do Centro de Informação Alternativa.

 
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