Uma guerra inútil levou a uma derrota moral para Israel criar PDF versão para impressão
26-Jan-2009
Gaza sob os bombardeamentos - Foto Lusa/EPAEm termos históricos, é impossível separar a ofensiva de Israel contra o Hamas em Gaza do longo historial de conflitos e queixumes mútuos na região.
Em termos geográficos, a guerra sobre uma minúscula parcela de terra não pode ser desligada do envolvimento mais alargado e dos interesses estratégicos de outros países: Síria, Egipto, EUA, Irão.

Editorial do jornal britânico "The Observer" de 18 de Janeiro de 2009.

Ainda que com um cessar-fogo unilateral israelita, é difícil saber onde a guerra realmente começa e acaba.

Este facto, por si só, explica porque é que a operação representa uma derrota para Israel, como foi desde sempre o resultado possível. A ideia de que os problemas de segurança do país podem ser resolvidos pelo uso unilateral da força extrema é um engano persistente entre os políticos israelitas. Neste caso, o problema foi atribuído ao lançamento dos rockets do Hamas no sul de Israel. A solução foi entendida como uma guerra contra o Hamas. Essa análise não permitiu o reconhecimento humano vital que, sendo a faixa de Gaza densamente povoada, uma guerra máxima contra o Hamas é, por necessidade, um ataque à população civil.

Nos seus próprios termos, o ataque fracassou. As autoridades israelitas vão continuar a dizer que limitaram a capacidade do Hamas de lançarem rockets. Mas o objectivo aparente da guerra era destruir completamente essa capacidade.

Israel também reivindicará que o seu ataque revelou a falta de apoio de muitas capitais árabes ao Hamas; que a posição do Hamas como autoridade governante em Gaza foi subvertida; e que o Hamas foi revelado como sendo pouco mais que um mandatário de terroristas armados pela Síria e o Irão e agindo a favor destes.

Mas a realidade é que o estatuto do Hamas, enquanto instrumento preferido para a resistência palestiniana à ocupação israelita, foi aumentado pela brutalidade indiscriminada do assalto militar.

Entretanto, esse estatuto garante, de certa forma, o ressurgimento da resposta armada, incluindo rockets e ataques de terroristas em terra israelita. É possível que a capacidade militar do Hamas tenha sido drasticamente reduzida, mas mesmo quando Israel teve pleno controlo das fronteiras externas de Gaza, não pode parar o comércio de armas de contrabando. Infelizmente, o Hamas rearmar-se-á, com ou sem acordo de cessar-fogo.

Entretanto, qualquer maior envolvência iraniana ou apoio terrorista sírio é irrelevante face ao ultraje global do enorme desprezo revelado pelas forças israelitas para com as vidas dos civis palestinianos. É bastante possível, como o "The Observer" relata hoje, que uma retirada israelita revelará a evidência de acções que poderão ser consideradas como acusações de crimes de guerra. Essas alegações devem ser investigadas independentemente

Os aliados ocidentais de Israel, principalmente os EUA, defenderam tradicionalmente o país com base de que é uma democracia rodeada por regimes despóticos e terroristas. Mas enquanto os cidadãos israelitas gozam de uma imensa liberdade política e social, estes valores não impedem automaticamente que o estado cometa atrocidades.

O facto de Israel ser uma democracia não é uma razão para resistir às negociações com o Hamas. Isto era verdade antes desta guerra brutal e inútil e continuará a sê-lo depois.

Tradução de Ana da Palma

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