Em Israel, a norma é um desapego da realidade criar PDF versão para impressão
29-Jan-2009
Imagem de Pouco depois de ter visto «Valsa com Bashir», vi na televisão imagens dos corpos dos palestinianos quebrados pelas bombas e os mísseis israelitas em Gaza no 22º dia de bombardeamento. Ao início, pensei que pouca coisa tinha mudado desde Sabra e Chatila. Mais uma vez, dizia-se a mesma desculpa insultante, segundo a qual, de qualquer forma, Israel não tem culpa.
Por Patrick Cockburn, publicado originalmente no The Independent

Vi o soberbo documentário de animação «Valsa com Bashir» sobre a invasão israelita do Líbano em 1982. O filme atinge o seu auge com o massacre de cerca de 1.700 palestinianos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila a sul de Beirute. O exército israelita introduziu as milícias cristãs nos campos e ficou por perto para seguir a carnificina.

Pouco tempo antes do fim do filme, passa-se do desenho animado a imagens da actualidade em que mulheres palestinianas gritam de dor e de horror quando descobrem os corpos cobertos de balas dos seus parentes. E, mesmo atrás das mulheres, estou eu com um pequeno grupo de jornalistas que chegou ao campo pouco depois do fim da matança.

O filme conta a história do seu realizador, Ari Follman, que sabia que tinha estado em Sabra e Chatila enquanto soldado israelita e que procura saber porquê recalcou toda a lembrança do que lhe aconteceu e o grau de cumplicidade israelita no massacre.

Quando saí do cinema, apercebi-me que eu também tinha recalcado as minhas memórias desse dia horrível. Nem encontrei o artigo que escrevi sobre o assunto para o Financial Times onde trabalhava naquele tempo. Mesmo agora, tenho a memória enevoada e fragmentada, apesar de me lembrar nitidamente do enjoo do cheiro açucarado dos corpos em estado de decomposição, das moscas aglutinadas à volta dos olhos de mulheres e de crianças mortas, dos membros e das cabeças sangrentos erguendo-se da terra atirada pelos bulldozers numa vaga tentativa para cobrir os corpos.

Pouco depois de ter visto «Valsa com Bashir», vi na televisão imagens dos corpos dos palestinianos quebrados pelas bombas e os mísseis israelitas em Gaza no 22º dia de bombardeamento. Ao início, pensei que pouca coisa tinha mudado desde Sabra e Chatila. Mais uma vez, dizia-se a mesma desculpa insultante, segundo a qual, de qualquer forma, Israel não tem culpa. O Hamas utilizava civis como escudos humanos e de qualquer forma - um argumento lançado furtivamente - os dois terços da população de Gaza tinha votado pelo Hamas e mereciam o que lhes estava a acontecer.

Mas, de regresso a Jerusalém, dez anos após ter trabalhado como correspondente para o jornal The Independent de 1995 a 1999, constato que se Israel mudou muito, foi para pior. Há muito menos contestação que antes e a contestação é agora considerada como sendo uma forma de deslealdade.

A sociedade israelita sempre viveu fechada sobre ela própria, mas estes dias lembra-me mais do que nunca os unionistas da Irlanda do Norte no final dos anos 60, ou os cristãos libaneses dos anos 70. Tal como Israel, tratava-se de sociedades animadas por uma mentalidade de sítio que os levava sempre a identificarem-se como vitimas, mesmo quando eram elas a matar os outros. Não havia remorsos e nem se sabia o que se infligia ao outro, consequentemente todas as represálias da outra parte eram consideradas como uma agressão não provocada, inspirada pela cegueira do ódio.

Em Sabra e Chatila, o primeiro jornalista a ter descoberto o massacre foi um israelita que tentou desesperadamente fazê-lo parar. Não se passa assim hoje em dia, porque a entrada em Gaza antes do início do bombardeio israelita foi proibida aos jornalistas israelitas e a todos os jornalistas estrangeiros. Assim foi muito mais fácil para o governo fazer acreditar na versão oficial de que a operação foi um êxito.

Ninguém acredita mais na propaganda do que aquele que a propaga, e é assim que Israel vê o mundo exterior de uma forma cada vez mais despegada da realidade. Um universitário teria dito que a opinião dos árabes sobre o que se passava em Israel lhes vinha do que os próprios israelitas diziam. Portanto, se os Israelitas diziam terem ganho em Gaza, ao contrário do que se passou no Líbano em 2006, os árabes iriam acreditar e desta forma a dissuasão israelita seria restabelecida por magia.

A contestação é cada vez menos tolerada e a situação poderá piorar. Benjamin Netanyahou - que contribuiu para enterrar os acordos de Oslo com os palestinianos quando foi primeiro-ministro de 1996 a 1999 - vai provavelmente ganhar as eleições de 10 de Fevereiro. A única coisa que ainda não sabemos, é como é que vai progredir a extrema-direita.

Esta semana, os membros da extrema-direita deram a conhecer a sua posição, como por exemplo Avigdor Lieberman, presidente do partido Ysrael Beitenu, que segundo as sondagens irá obter muitos bons resultados nas próximas eleições; Lieberman apoiou a desqualificação dos dois partidos israelitas árabes, impedindo-os de se apresentar às eleições. Avisou os seus representantes: «Pela primeira vez examinamos a diferença entre lealdade e deslealdade». «Trataremos de vós da mesma maneira que tratámos do Hamas».

22 Janeiro 2009

Traduction de l'anglais: Anne-Marie Goossens - Tradução do francês: Ana da Palma

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