Reflexões sobre uma entrevista criar PDF versão para impressão
06-Nov-2006

violante_saramagomatos.jpgA entrevista do presidente do Governo Regional da Madeira à RTP-1 foi muito mais que o sucessivo, e até certo ponto atabalhoado, debitar de números e percentagens frente a uma jornalista claramente mal preparada, incapaz de colocar o dedo nas inúmeras feridas - desde uma dívida pública, directa e indirecta, na ordem dos 1 400 milhões de euros (quando o orçamento para 2006 se situa à volta de 1 600 milhões) e da sua importância numa economia de escala tão reduzida como a da Madeira, até às engenharias financeiras das Sociedades de Desenvolvimento, das E. P. E.s e das S. A.s, passando pela praça financeira que é, pelo menos, penalizadora em três frentes: altera de forma significativa o valor do PIB regional com as consequências conhecidas; beneficia de isenções fiscais as operações financeiras aí realizadas e que, só em 2007, penalizarão o orçamento de Estado em mil milhões de euros; permite que sobre os juros dos empréstimos obrigacionistas, emitidos até finais deste ano, não sejam cobrados quaisquer impostos.

Indo mais além, ouve-se um presidente do Governo dizer que o problema não é o corte das transferências - o problema é que esse corte seja agora. Verdadeiramente, ele não está muito interessado em saber das consequências que daqui advenham para uma região que, com menos de 250 mil habitantes, paga 8 000 subsídios de desemprego e outros tantos de reinserção e tem 30 000 reformados a receber abaixo do ordenado mínimo. O que o preocupa é não acabar as obras para eleições. Porque 2008 está perto e nunca se sabe o que pode acontecer.

Indo ainda mais além, ouve-se o entrevistado justificar declarações de um seu vice-presidente na Assembleia Legislativa da Madeira relativas ao regresso da FLAMA - uma organização que fez das bombas o seu estilo e modo de acção a seguir a 1975. E pior, fica-se a saber que foi ele quem, depois de chegar ao poder na Região, chamou os flamistas ao seu gabinete e lhes disse: Meus amigos, vamos a parar. E eles pararam. Assim, tão simples? Como? Porquê?

Em jeito de conclusão, ficam ainda algumas perguntas que devem merecer uma reflexão muito profunda a atenta da parte de todos quantos se preocupam com estas coisas ‘simples' da cidadania e da democracia.

O dever de responsáveis políticos não é, num regime democrático, fornecer ao poder policial e judicial as informações necessárias para o combate a este tipo de organizações?

Conversa-se dentro de portas com a FLAMA, amigos como sempre, como se acolhe dentro do país, sem sequer um simples julgamento, facínoras da PIDE como o Silva Pais ou o Rosa Casaco?

Porque é que o país nunca se liberta de um eterno complexo de culpa ou, de desculpa, perante aqueles que, de uma forma ou de outra, o subjugam?

Porquê esta complacência atávica, este sentir-se conformado com a opressão?

Porque é que se olha de lado o protesto justo, mas se encontra ‘explicação' para a repressão da greve?

Porque é que se aceita um certo deixa-andar, em vez de ir à luta e dizer Porque não! ? Porquê?

As respostas não são simples, mas que o país tem que as encontrar rapidamente, lá isso tem.

Violante Saramago Matos

 
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