Carta a Luís Amado criar PDF versão para impressão
03-Jan-2009
Miguel PortasA 3 de Dezembro, liberais, verdes, socialistas, esquerda e ainda vários deputados de direita constituíram uma sólida maioria no Parlamento Europeu para adiar sine die a votação de uma resolução que propunha elevar o nível das relações entre a União e o Estado de Israel. Que aconteceu para que tal maioria se formasse? Apenas a convicção de que a realidade do conflito no terreno não justificava o prémio.

Apesar desta opinião, o Conselho decidiu, dez dias mais tarde, o upgrade das relações com Telavive. Contra a vontade dos eleitos, os governos quiseram apoiar a senhora Tzipi Livni na difícil contenda eleitoral que a espera no próximo mês de Fevereiro.

Esta decisão não constituiu apenas uma interferência nos assuntos internos de Israel. Esse antigo hábito, pelos vistos, não incomoda ninguém. O que me incomoda a mim, como cidadão e como eleito, é que o Conselho, com o apoio do governo do meu país, tenha tomado tal decisão quando era um segredo de polichinelo que Israel, entre uma operação aérea contra o Irão ou mais uma punição colectiva sobre os palestinianos, tinha optado por esta.

O que o meu governo, presumo que com o seu aviso, caucionou antecipadamente foi uma tragédia anunciada. Aliás, só decidiram como decidiram porque conheciam as intenções de Telavive. Depois da ofensiva contra Gaza, a elevação das relações com Israel seria bem mais difícil de explicar às opiniões públicas.

A sua nota atribui aos rockets artesanais lançados de Gaza a primeira responsabilidade pela tragédia. Além de indigno é, factualmente, falso. Só em seguida deplora o "uso desproporcionado da força". Como se pode classificar deste modo uma matança que só nos três primeiros dias fez 350 vítimas? Não sente nem um grama de peso na consciência quando constata que a decisão do Conselho "libertou" Israel de qualquer ponderação do "factor Europa" na decisão militar que tomou?

Desde que sou eurodeputado, sigo diariamente a política europeia para este conflito. Devo dizer-lhe, com toda a franqueza que, além de execrável, é francamente estúpida. Execrável foi pedir aos palestinianos que votassem para, no dia seguinte, se bloquear o governo saído das únicas eleições realmente limpas até hoje realizadas no mundo árabe; execrável é agora a caução dada a um crime sobredeterminado por uma eleição. Até quando irá a Europa prestar-se a este papel, que a presidência checa só pode agravar? Até quando continuará Portugal a delapidar o capital de mediação que conquistou no conflito em Timor?

A parte da estupidez, conhece-a tão bem como eu: quando os mortos de Gaza forem a enterrar e se reconstruir, pela enésima vez, o que as bombas e mísseis israelitas acabaram de destruir, já se sabe quem vai pagar. Sucede que naquele mundo ninguém agradece - e ainda bem - a subalternos da política de terceiros.

Miguel Portas, artigo publicado no jornal Sol de 3 de Janeiro de 2009 e também no blogue Sem Muros

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