Cavaco e Ano Novo criar PDF versão para impressão
05-Jan-2009
Cecília HonórioA mensagem de ano novo de Cavaco recebeu palavras reconhecidas de todos os que com elas quiseram sublimar a crítica a Sócrates.
Opinadores e especialistas afanaram-se a analisar aquelas palavras, aquela voz de uma entidade que, "acima" de lógicas mesquinhas, é o triunfo do bom-senso sobre a pequenez dos "interesses", a começar pelos dos partidos. E fizeram-no de consciência tranquila, como sempre, cansados dos seus próprios prognósticos sobre o fim do jogo da cooperação estratégica.

É triste mas não é fado de ano novo este altar do Presidente, este seu lugar não fora dos interesses partidários mas acima deles e da própria política.

A hipermediatização da política e a volatilidade dos dias podem viver destes ruídos do momento, mas não mataram ainda a história e a memória da perversidade e utilidade dos mitos.

Exemplos da exterioridade dos chefes políticos à miséria da sua própria realidade é o que não falta. Durante séculos, os reis foram poupados como alvos da raiva da populaça. Os cobradores de impostos e demais executantes das suas ordens podiam ficar sem cabeça, mas tocar no rei é que não. E o rei tinha lá aquelas contas difíceis com deus, que a populaça conhecia mal. Quando acabou o tempo destes reis, vieram outros e vieram os presidentes e os primeiros-ministros. A crises do capitalismo, no século XX, arrastaram com o medo o apetite voraz por lideranças e executivos fortes. Cíclicos, os episódios de amor aos chefes acima da mesquinhez, e dos partidos e interesses, deixaram em herança os líderes carismáticos dos fascismos, que fizeram o que tinham para fazer: recompor a aliança entre Estado e classe dominante.

E se os exemplos parecem longínquos ou irrepetíveis, certo é que nem Cavaco nem Sócrates estão fora daquela recomposição e do consenso possível entre as suas fracções. O consenso é exigência do programa que é o delas, não é o da populaça. O consenso que serviliza a política, como e quando lhe dá jeito, e às vezes dá-lhe jeito estes líderes limpos e "acima".

Nem limpos nem "acima". Se Sócrates leiloou os serviços públicos, em nome do reformismo modernaço e do ataque às corporações que parasitavam o Estado (entre as quais @s professores/as foram o alvo mais fácil), mantendo o são convívio entre ele próprio, banqueiros e patrões intocáveis, Cavaco foi, na década de 90, esse motor único do "desenvolvimentismo" subsídio-dependente, de incontáveis virtudes e elites predadoras.

Então, e a partilha do leito desta periferia imobilista, paraíso de Amorins e Jardins, deste modelo miserável de salários baixos e mão-de-obra precária, onde os patrões precarizam tod@s e enxotam @s mais qualificad@s?

Então, e se ambos têm por certo que os "benefícios do chamado Estado-Providência foram respeitados enquanto serviram como instrumentos anti-crise" e que foram, e serão, deitados fora, esgotada a função e reduzidos a lixo enquanto "benefícios sociais"? (palavras de João Martins Pereira -"O que muda e o que não muda", Março, 1995 - todas actuais e absolutamente imprescindíveis nos dias que correm).

E se Cavaco faz parte dessa crise longa, que torna a crise de Sócrates mais profunda e imprevisível, todas as forças de esquerda têm todas as razões para uma plataforma pelos serviços públicos, em 2009.

Cecília Honório

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