Sabra e Shatila revisitados criar PDF versão para impressão
06-Jan-2009
Alice Brito

Em 1982 as milícias cristãs libanesas pró israelitas entraram em Sabra e Shatila, dois campos de refugiados palestinianos situados na periferia de Beirute.

Era Setembro e o sol cruel das duas da tarde, um sol amplo e ocre, amadurecia nos subúrbios aconselhando a quietude e o abrigo que as sombras e as casas propiciam.

Mas havia qualquer coisa no ar, uma sinistra electricidade que precede o perigo, que levou alguns habitantes a um inexplicável estado de alerta.

Nessa manhã de meados daquele Setembro, que se revelaria um Setembro trágico e malvado, aviões israelitas tinham sobrevoado os campos num voo baixo de insecto perverso.

À tarde, começaram-se a ouvir explosões seguidas depois de silêncios cúmplices que induziam as pessoas a sair à rua a ver o que tinha acontecido. Aí chegadas, a soldadesca miliciana, munida de armas brancas para não fazer barulho, trespassava os corpos que se foram amontoando nas ruas.

O tempo que se seguiu foi todo ele criteriosamente ocupado em doses industriais de massacre.

Durante cerca de dois dias, cada hora foi ocupada como se fosse um espaço de execução, cada minuto, ou até o sopro de um segundo, funcionou como território mortífero habitado pela árdua tarefa da chacina.

A contabilidade da matança aponta para números esguios que rondam os três milhares.

O mundo incomodado com o cheiro a sangue que os ventos informativos trouxeram, condenou agoniado o calvário desregrado daquele pogrom que tinha, bem legível, a assinatura de Israel.

Condenou e esqueceu logo a seguir, com a facilidade com que se esquece o filme que se viu e de que não se gostou.

Vinte e seis anos depois, Israel reedita em edição de luxo a loucura de Sabra e Shatila.

A faixa de Gaza cheira aos estrondos sucessivos das bombas e metralhas.

Cheira ao medo de gente encurralada, que vê a morte a passear-se à sua frente à boleia dos tanques e aviões israelitas. Cheira a lágrimas, a pânico, a perda, cheira ao arame farpado dos nervos esfacelados.

Enquanto isso, atafulhado de fitas e de embalagens dos despojos natalícios, o mundo ocidental olha de lado as imagens que câmaras vorazes vão lambendo com pressuroso afã noticioso. Nelas, não se pressente sequer o vulto da consciência de quem semeia a violência e de quem olha a violência com o à vontade obsceno do deixa andar.

À meia-noite de dia 31 de Dezembro, na passagem do ano, o mundo desenvolvido e doido tapou os ouvidos e simulou ensurdecer face ao detonar das rolhas das garrafas de champanhe.

Comentadores políticos, governantes, generais, vêm à televisão e justificam o crime, legitimando-o. Há nos discursos que se vão tecendo a análise entusiasmada das estratégias da destruição, a descrição do tipo de armas utilizadas, como se tudo fosse um jogo de computador e as crianças que morrem estilhaçadas fossem bonecos virtuais, meros figurantes da paisagem da guerra.

A demência anda à solta neste planeta.

Alice Brito

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