Diário de Atenas / 1 criar PDF versão para impressão
07-Jan-2009
José SoeiroRegresso às aulas ou "ninguém nas aulas, todos na rua"?

Amanhã é o dia do regresso às aulas. As faculdades que estiveram ocupadas estão a ser pintadas e reconstruídas pelo Governo, que tenta apagar as marcas da revolta. Para amanhã, estão marcadas várias assembleias, que decidirão como vai continuar o protesto. Para já, está também agendada uma manifestação em toda a Grécia para sexta-feira. No fim do ano, quando começaram as férias de Natal, os estudantes despediram-se do poder com o seguinte slogan: Merry Crisis and a Happy New Fear. Amanhã veremos se tinham razão. E qual o impacto do que aconteceu anteontem.

O policia assassinado e as expectativas para dia 9

Anteontem, um policia de 21 anos foi alvejado por uma metralhadora MP5 e uma Kalashnikov. Diz-se que a acção foi perpetrada por um grupo chamado Luta Revolucionária, mas na verdade não foi reivindicada por ninguém. Do que nos disseram, trata-se de uma acção isolada e feita por um grupo sem nenhuma ligação ao movimento. A esquerda radical, nomeadamente a SYRIZA, que tem estado com a revolta dos jovens, já condenou o ataque. Ontem, alguns milhares de pessoas concentraram-se em frente ao hospital onde está o polícia. A Igreja recebeu palmas na visita que lhe fez. O Governo deve estar contente: agora é muito mais fácil justificar uma onda repressiva sobre os que protestam contra a precariedade e contra a violência policial que assassinou o jovem Grigoropoulos.

As expectativas em relação à manifestação são assim condicionadas por este episódio. Pode acontecer que a policia tenha uma acção mais violenta e repressiva. Pode acontecer que uma parte dos manifestantes, que tem sido alvo de buscas e intimidação nos últimos dias, tenha uma reacção mais violenta na manif. Pode acontecer que haja mais gente, também contra a manipulação. Pode acontecer que haja menos gente, pelo isolamento da revolta ou por temerem que a tensão degenere em violência.

Quem não tem cão, caça com gato

No ano passado, um enorme protesto que atravessou as universidades gregas conseguiu derrotar o governo e fazer recuar a proposta de revisão constitucional que previa a possibilidade de ensino privado na Grécia. Neste país, o ensino superior é público e gratuito. Face à força da mobilização estudantil, essa reforma que abria as portas da educação aos privados não passou. Mas a luta mantém-se. A estratégia do negócio percebeu que se não podia caçar com cão, podia caçar com gato: o que agora acontece é que há uma espécie de "franchising" de Universidades privadas de outros países europeus que abrem filiais na Grécia e que, depois, certificam os estudantes com os diplomas desses países. Ainda que o ensino privado não exista na Grécia, quem frequenta estas escolas pode depois ter um diploma de outro país e trabalhar com essa qualificação na Grécia, uma vez que assim prevêem as leis europeias. Dessa forma, contorna a lei grega que protege a educação da invasão do mercado. Por isso, também os estudantes terão de arranjar formas criativas - e preferencialmente à escala europeia - para manter o conhecimento na esfera não mercantil dos direitos.

Eles lá é mais bombas...

O Governo grego gastou todo o stock de gás lacrimogéneo que tinha, na repressão das manifestações do mês de Dezembro. Segundo se conta por cá, pediu ao Governo israelita que lhe dispensasse algum, para ser utilizado no próximo dia 9, mas que já foi testado nas manifestações que existiram aqui em Atenas contra a invasão israelita e o genocídio em Gaza.

José Soeiro

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