O mundo visto da Marmeleira criar PDF versão para impressão
08-Jan-2009
Cristina AndradeNum artigo de opinião, José Pacheco Pereira debruça-se sobre a situação do desemprego em Portugal, prevendo-o como "principal factor de crise social e de empobrecimento que se manifestará em 2009". Até aqui estamos de acordo. O problema vem a seguir...

Pasmo perante a solução apresentada por Pacheco Pereira para fazer face ao desemprego que redunda numa ignóbil ‘lapalissada', considerando que "mais vale ter emprego, mesmo que mau, desprotegido, sem direitos, precário, do que não ter emprego nenhum."

Entre muitas perplexidades que esta afirmação encerra, uma delas remete para o facto de lhe ser inerente o conceito de que existem uns quantos afortunados a quem calhou a sorte de pertencerem a uma casta superior que lhes permite residir na Marmeleira, comprar livros em Bruxelas ou Paris e trabalhar arduamente, sendo pago em concordância.

Por outro lado, existem castas inferiores de degredados que, suspirando, gemendo e chorando, passam por este vale de lágrimas, trabalhando também arduamente, mas recebendo muito pouco porque assim é a ordem natural das coisas

Esta gente proscrita tem que se contentar com o pouco que tem porque, enfim, mais vale morar numa barraca do que debaixo da ponte. Mais vale comer pão seco do que passar fome. Mais vale trabalhar dez horas por dia e receber 300 euros do que não ter salário algum.

Comparar o mau com o seu pior é um exercício de frivolidade perversa e de facilitismo bacoco, tendo como objectivo induzir à inércia.

Presumo que seja isso que Pacheco Pereira pretende: promover um país pacato e sereno, onde o medo recrudesce até se transformar num terror paralisante, que induz os coitados dos pobrezinhos a contentarem-se com o seu triste fado enquanto auspiciam o descanso divino até porque, afinal, é aos pobres que se destina o reino dos céus.

Pela parte que me toca, dispenso e abjuro esta caridadezinha. E desprezo a noção de que mais vale coisa alguma do que coisa nenhuma.

- É assim a vida, dirá Pacheco Pereira.

- Só se deixarmos, digo eu.

Cristina Andrade, psicóloga, activista do Ferve.

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