O Novo Plano de Mobilidade para a Baixa de Lisboa criar PDF versão para impressão
10-Jan-2009
Bernardino ArandaHá já muitos anos que existe o sonho de retirar o trânsito de atravessamento da Baixa e torná-la numa zona da cidade em que seja possível desfrutar calmamente o rio em frente, Alfama, Mouraria e o Castelo, à esquerda e o Chiado, do outro lado.

Por exemplo, na exposição "Lisboa 1758, o Plano da Baixa Hoje", que está patente no Páteo da Galé, no Terreiro do Paço, podemos ver desenhos já com algumas décadas de túneis que ligariam a Av. da Liberdade ao Cais do Sodré e ao Campo das Cebolas...

Nada disso foi entretanto concretizado e, pelo contrário, foram criadas cada vez mais condições, ao longo da Av. 24 de Julho e da Infante D. Henrique, até à Expo, para que os automóveis pudessem circular junto à frente ribeirinha, ao mesmo tempo que se apostou em mais acessos rodoviários ao centro da cidade, como foi o caso recente do Túnel do Marquês.

Passam hoje diariamente, mais de 65 mil veículos no Terreiro do Paço, sendo que cerca de 75% é tráfego de atravessamento, entre nascente e poente e Av. da Liberdade. 65 mil veículos é um número brutal, só comparável ao tráfego dos grandes nós rodoviários.

Á luz da legislação actual, dados os níveis de poluição sonora e atmosférica produzidos pelo automóvel, não é permitida sequer a utilização do edificado mais exposto, de toda aquela zona que vai desde a Baixa ao Marquês de Pombal, para usos mais sensíveis como habitação, escolas, etc.

O sonho de retirar ou diminuir a circulação automóvel na Baixa, torna-se então cada vez mais urgente ao mesmo tempo que se torna também cada vez mais difícil de concretizar, porque se vai estruturando a cidade tendo em conta este modelo de mobilidade e vão sedimentando-se hábitos difíceis de alterar.

Face a esta situação incomportável, não existe outra alternativa senão uma ruptura definitiva com o actual modelo, dificultando o acesso à Baixa com um automóvel privado e dando prioridade aos transportes públicos.

Foi aprovado esta semana em reunião de Câmara (com os votos contra da direita), passando agora para discussão pública, o novo Plano de Circulação na Baixa, que vai ao encontro destas medidas.

O lobbie do carro já se começou a movimentar. O Automóvel Clube Portugal encomendou um estudo destinado a provar que são insustentáveis as alterações que a Câmara quer promover.

O estudo vai chegar rapidamente às conclusões pretendidas por quem o encomendou: Basta demonstrar que os 65 mil veículos que passam hoje no Terreiro do Paço, não cabem nas ruas da Alfândega ou do Arsenal. Mas o que o estudo não pode quantificar é a influencia que estas medidas terão no comportamento dos cidadãos. Na apetência que estes passarão a ter para deixar o seu automóvel em casa e procurarem alternativas como os transportes públicos, a deslocação a pé ou de bicicleta. E também, na sua própria disponibilidade para reivindicarem do poder local e central, redes cicláveis, melhoramentos na rede de transportes públicos e tarifas mais acessíveis.

Seria importante, aliás, que esta pressão se começasse a sentir desde já, no processo de discussão pública que se segue.

Bernardino Aranda

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