Diário de Atenas/ 6 criar PDF versão para impressão
13-Jan-2009
José Soeiro

Brandos costumes?

O que acontece nas faculdade gregas dificilmente aconteceria em Portugal. Não porque não haja razões objectivas para o descontentamento. Não porque os portugueses sejam um povo de "brandos costumes" ou porque exista qualquer "essência nacional" que nos empurre para o conformismo. A razão essencial porque isto não aconteceria, para além das diferenças históricas - nomeadamente em termos de movimentação estudantil e de culturas de luta - é porque o processo de liberalização da educação está, em Portugal, muito mais avançado que na Grécia. E liberalização não é apenas propinas altas. Liberalização significa que não há tempo para discutir, que a pressão para "não perder tempo" com coisas tão "desnecessárias" a uma universidade quanto debater o mundo e a vida é muitíssimo maior. Significa que a relação dos estudantes com aquele espaço é tendencialmente a relação de um cliente com um serviço pelo qual paga - e portanto, que tem de consumir rápido e sem se distrair com outras coisas. Significa que o espaço para o pensamento crítico vai sendo cada vez mais tomado pelo espaço do mercado. E quando em Portugal nos impuseram as propinas, as fundações, as "receitas próprias" ou a recuperação das velhas tradições académicas, não era apenas para "poupar dinheiro" ao Estado. Era a própria democracia que se queria expulsar das escolas.

O fim do consenso

Há muitas formas de olhar para a realidade grega. A dificuldade de uma revolta como esta é que não tem uma tradução política imediata. É provável que, depois de mais de um mês de conflitos de rua e com uma fortíssima campanha conservadora dos média e da generalidade das forças politicas gregas, a maioria da opinião pública esteja contra o movimento. Mas o que se passa na Grécia é mais profundo. É um enorme processo de envolvimento e de politização da juventude, estudantil e precária, que é, em si mesmo, transformador. É um grito de revolta contra a brutalidade da repressão. E parece ser, de alguma forma, o fim do consenso sobre a bondade das políticas liberais. A sociedade grega está confrontada com uma realidade feroz, em que a solução apresentada para a crise é a mercantilização dos direitos e a precarização generalizada. E toda a gente começa a perceber, novos e velhos, os resultados concretos dessa escolha.

Diários de Atenas

Este diário foi o relato possível do que fomos vendo e vivendo. Acaba hoje. Foi um relato necessariamente imperfeito e parcial, um ponto de vista particular sobre o que aqui se passa. É provável que a televisão portuguesa continue a ignorar o que aqui acontece, que os jornais não dêem conhecimento dos dias de Atenas e que na net seja difícil encontrar notícias numa língua que a maior parte de nós perceba. Mas a luta na Grécia continua. Quem quiser, pode acompanhar as cenas dos próximos capítulos relatados por outras pessoas. Aqui, por exemplo: http://athens.indymedia.org/?lang=en. Ou aqui: http://www.occupiedlondon.org/blog/

Saltar as fronteiras do possível

Há muitos motivos para saltar fronteiras. O nosso, dos quatro que aqui estamos, foi tentar perceber, ainda que de forma tão limitada e incompleta, uma experiência concreta de combate e de organização. Estivemos sempre muito bem acompanhados pelos companheiros gregos que nos acolheram. Em cada acção e em cada exemplo, o que vimos rasga as fronteiras do possível. O que vimos faz-nos sentir que a realidade não é apenas o que existe, mas as possibilidades que existem da realidade ser diferente. Depende também de nós. Demasiadas vezes, arranjamos álibis para abandonarmos o campo das lutas: são também eles os nossos inimigos. Não sei o que sentimos nestes últimos dias. Sei que, intensamente, nos sentimos vivos.

Obrigado

(roubando as palavras a Marcos) "Companheiros, companheiras. Grécia revoltada. Nós, os de baixo, deste canto do mundo, saudamo-vos. Aceitem o nosso respeito e a nossa admiração pelo que estão a fazer e a pensar. De longe, estamos a aprender convosco. Obrigado"

José Soeiro

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