A ditadura do alcatrão revisitada criar PDF versão para impressão
12-Jan-2009
Pedro SoaresAgora é em Coimbra e afecta de forma despudorada a histórica Mata do Choupal e o próprio Mondego. O projecto de construção do Itinerário Complementar (IC) 2 prevê um tráfego de cem mil veículos por dia, incluindo trânsito pesado, e, na sua passagem por aquela cidade, atravessa cinco freguesias urbanas densamente povoadas, amputando, para além disso, uma área considerável da Mata Nacional do Choupal.

O provedor do Ambiente e da Qualidade de Vida Urbana de Coimbra já considerou que se estão a sacrificar valores ambientais e estéticos irrecuperáveis e acha muito estranho que o projecto sujeito a Avaliação de Impacte Ambiental não tivesse contemplado alternativas ao traçado, como seria natural, nomeadamente a possibilidade de atravessamento em túnel, tal como está previsto para o TGV. A Quercus também já referiu que estes estudos só não contemplam alternativas quando a decisão já se encontra tomada a priori.

A situação é grave e lamentável. O Bloco de Esquerda de Coimbra acusou o governo, o executivo camarário PSD, bem como os deputados eleitos por aquele distrito, de serem responsáveis por este tratamento da cidade, dos seus habitantes e do seu património ambiental e cultural.

É incrível que nenhuma destas entidades tenha a lucidez de se opor às péssimas soluções que estão agora a ser impostas a Coimbra, que resultam de um atar atabalhoado das pontas daquelas vias estruturantes vindas do Norte e do Sul. De facto, é surreal que o traçado do IC2 e do IC3 tenha sido estudado de um modo parcial e desarticulado, de Coimbra para Sul, e do Norte até Coimbra, num mapa em que a cidade parece não figurar.

Tudo isto assume contornos ainda mais estranhos perante a recente notícia do JN, que evidenciou a contradição absoluta entre a Declaração de Impacte Ambiental (DIA), que autorizou a travessia do Choupal, e as conclusões da respectiva Comissão de Avaliação, assim como a Lei de Bases da Política Florestal. Aquela Comissão, encarregada de ponderar o impacte ambiental do troço do IC2 sobre a Mata Nacional do Choupal, não deixa margem para dúvidas e entende que "os impactes gerados nesta área seriam negativos, muito significativos e permanentes". Contudo, o secretário de Estado acabou por despachar favoravelmente a DIA.

Pois bem, o país que decide nos gabinetes ministeriais parece submeter-se, mais uma vez, a uma espécie de ditadura que o alcatrão exerce sobre tudo o resto, particularmente sobre o ambiente e o desenvolvimento sustentável. Serão interesses particulares que se continuam a sobrepor ao interesse público? Cada vez há menos dúvidas sobre essa questão, mas, seja como for, é inadmissível que o património ambiental e a qualidade de vida das pessoas não possam contar, em sua defesa, com os responsáveis governamentais e com o poder autárquico instalado, conforme seria obrigação de ambos.

Pedro Soares

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