Relato de uma visita à terra da guerra criar PDF versão para impressão
13-Jan-2009

Miguel PortasFeridos

90 minutos - eis o tempo de que dispusemos no interior da faixa de Gaza, em Raffa e Arafat, a cidade ao lado, quando já desesperávamos quanto à possibilidade de entrarmos.

Com efeito, na noite anterior, recebemos a informação de que o ministério da defesa de Israel recusara à UNRWA a garantia de segurança para as viaturas que nos iriam apanhar na fronteira e sem as quais não nos poderíamos mover.

Finalmente, as resistências foram vencidas. Pelas duas e um quarto, já do lado palestiniano da fronteira, chegaram os jipes. Na primeira hora de trégua assistimos à chegada de cinco ambulâncias do crescente vermelho com feridos em estado grave e que foram transferidos para as suas congéneres egípcias. Alguns dos feridos mais graves são transferidos para hospitais no Egipto para serem operados. Com anestesia, algo a que os que ficam deixaram de ter direito.

Guerra

Vários jornalistas perguntaram-me se vi muitas paisagens de destruição. Vi, mas não foram elas que me impressionaram. Estive em Gaza uma mão cheia de vezes e conheço-as. As mais recentes não são diferentes. A destruição por bombardeamento ou canhoneira carece de imaginação. Retive dois quarteirões arrasados, um no primeiro dia de guerra aérea, outro com três dias - porque ficavam a metros do centro de distribuição de alimentos da UNRWA em Arafat.

Principalmente, não me esquecerei que 4 bombas de grande porte caíram durante o período de tréguas. Os silvos de aviação e o impacto dessas explosões, esses sentimo-los bem. Posso garantir: Israel não respeita tréguas.

"Vida normal"

Durante as tréguas o povo sai para a rua. Não há praticamente lojas abertas mas as pessoas saem para respirar, passear e recolher as informações do dia. Se cai uma bomba a algumas centenas de metros, olham para a coluna de fumo, e a vida continua. Dito assim, parece terrível e é-o. Porque terrível é o modo como este povo interiorizou a vida com bombas.

Ouvimos outra a cair quando estávamos no segundo ponto onde parámos - o centro de acolhimento para refugiados de Arafat - e a reacção foi a mesma. Este padrão só se alterou quando, regressados à fronteira, uns minutos antes do fim da trégua, caças israelitas lançaram das alturas os foguetes que iluminam a zona que vai ser objecto de bombardeamento. Depois, um silvo, que me pareceu mais próximo do que os anteriores. Acto contínuo, os enfermeiros das ambulâncias afastam-se das viaturas e eu, em reflexo condicionado, acompanho-os. Segundos depois, a explosão, a não mais de 200 ou 300 metros, mesmo ao lado do muro do chamado "corredor de filadelfia". Foi perto, mesmo perto, e os de lá pressentiram-no. Como se antecipassem o fogo do céu.

Desvio por um filme

Não sei se viram a "Valsa com Baschir", um filme animado israelita actualmente em exibição nas salas de Lisboa e do Porto. É espantoso, não percam. O seu realizador resolveu abrir as gavetas da memória de um massacre, o dos campos de palestinianos em Sabra e Chatila, em 1982. O filme é essa investigação no mundo dos interditos que as guerras guardam em quem as vive. O mais notável nessa pesquisa é que todos os protagonistas são - e eram - pessoas comuns, com as preocupações e sonhos próprios das pessoas comuns. Aquele exército de ocupação teria os seus fanáticos, mas eles eram a excepção. Naquele filme, o realizador pensava em férias, o amigo era pacifista e só matava cães, o outro gostava de artes marciais, mas enlouquece algures na marginal de Beirute, dançando sobre balas como se pertencesse a outro filme, o Apocalipse Now. E por aí adiante. O pior da guerra é que habitua. Eu gostava, sinceramente gostava, que as crianças que vi no centro de acolhimento de Arafat não tivessem que crescer em guerra.

O centro de refugiados

O centro de acolhimento de refugiados da UNRWA em Arafat é um dos 26 que administram no território. Este acolhe 1215 crianças e mulheres. Crianças e mulheres que ficaram sem casa ou sem casa e sem família. Os rostos delas e as suas palavras são severas e dignas. O das crianças e dos jovens era entusiasmado. Não entendo o árabe, mas há momentos em que o som das palavras e os movimentos dos corpos dispensam tradução. Estava tudo naquele protesto, naquela dignidade, naquelas mão elevadas para o céu e naquela felicidade momentânea. A chegada dos de fora, os primeiros a entrarem, foi um bálsamo. Afinal, não estavam sós no mundo. Lá fora, muitos se batem contra este delírio. Não lhes levámos comida, mas outro tipo de alimento. Só por isso valeu a pena. Valeu para eles e valeu para a coragem dos homens da UNRWA que, contra todas as pressões, quiseram mesmo que entrássemos para aumentar a pressão sobre os que decidem do fim deste conflito sem solução militar.

Foi nesse mesmo centro, uma escola preparatória das Nações Unidas transformada em refúgio que pudemos ouvir o responsável máximo da UNRWA na faixa de Gaza explicar o óbvio - que se houvesse uma só munição ou arma nestas escolas, ninguém nelas procuraria acolhimento. Isto a propósito do bombardeamento de outra mais a Norte, há uns dias. Foi também aí que John Gilgs nos recordou outra evidência - que cada dia que passa sem um acordo de cessar-fogo e a reabertura das fronteiras tem um preço insuportável em vidas humanas. Esta é a mensagem desta visita - a primeira a romper um bloqueio criminoso. Outras considerações, de ordem política, deixo-as para mais tarde. Agora vou rever as imagens que filmei. É noite de lua cheia, faz um frio de rachar lá fora e eu sei que aqueles corpos se encaixam uns nos outros enquanto as bombas caem.

Miguel Portas, artigo publicado no blogue Sem Muros

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