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12-Jan-2009
João Teixeira LopesAo ouvirmos José Sócrates ou Augusto Santos Silva, cedo nos apercebemos que o Governo está a perder a calma. E não se trata, apenas, de questões de retórica, estilo oratório, tom de voz ou semântica. Há algo de mais profundo.

Quando o Ministro dos Assuntos Parlamentares insinuou a demissão do Governo caso o projecto do Bloco de Esquerda sobre a suspensão do modelo de avaliação fosse aprovado, tal chantagem encontra um curioso paralelo na pressão que o Primeiro-ministro decidiu fazer aos eleitores: ou a maioria absoluta ou o caos; ou ele, com o poder inteiro ou a desordem. De novo a paranóia bonapartista da maioria absoluta!

Para além da fraqueza dos raciocínios binários, que denunciam um pensamento fraco e pobre, eis que o Governo se concentrou, decisivamente, na frente esquerda, nela incluindo, sob fogo cerrado, os deputados e sectores do PS crescentemente descontentes com a deriva pragmática, clientelar e anti-social do executivo. Trata-se, pois, de usar todos os meios ao alcance: a pressão individualizada sobre os deputados do PS com críticas ou dúvidas; a oscilação entre a sedução e o ataque a Manuel Alegre; a assimilação dos já assimilados (Alberto Martins, Vera Jardim, Paulo Pedroso) e um rol de anúncios de medidas que, supostamente, dariam ao PS o tal ar de esquerda «moderna e popular». Agora são os principais ministros em coro a anunciar que a prioridade é o emprego! Paradoxo brutal, num ano em que encerraram 440 empresas no Distrito de Braga e em que o PS chumba projectos para a requalificação integrada do Vale do Sousa e do Cavado (incluindo medidas de criação e protecção de emprego acompanhadas de um fortíssimo combate às falências fraudulentas e às deslocalizações selvagens), para além de ter aprovado o pior Código do Trabalho de que há memória. Agora, a dita esquerda «moderna e popular» parece até querer abdicar de ser democrática, ao lançar vários sinais, como uma tenaz que se vai apertando sobre os órgãos de soberania, para antecipar as eleições, já que, quanto mais o ano decorrer, mais crescerá a intensidade dos efeitos da crise económica.

A serenidade do Bloco de Esquerda é imensa, embora mantenhamos activa toda a energia lutadora. Nada nos distrairá do embate fundamental. A nossa unidade nunca foi tão forte (porque compósita e respeitadora das opiniões, correntes e subjectividades). A convergência com amplos sectores políticos e sociais é um aliciante para os caminhos futuros, não um empecilho ou um medo. Pois se fomos nós a desejá-la e a impulsioná-la...Saberemos sempre dar tempo ao tempo. Com reflexão, crítica, dúvidas. Mas uma clareza e convicção inabalável no essencial: continuar a refundação da esquerda para transformar o país. Absolutamente!

João Teixeira Lopes

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