Notas sobre Gaza criar PDF versão para impressão
16-Jan-2009

Natasha Nunes1 Nos últimos dias praticamente só se tem falado da neve e de Ronaldo, da maçadoria que o frio polar acarreta e da exuberância que é a pátria ter produzido um filho que chegou a um verdadeiro lugar cimeiro nalguma coisa. Enquanto em Portugal se buscam, ludibriadamente, prolongar os efeitos anestésicos da ocorrência do improvável, em Gaza a ambiência ferve.

2 Israel não faz nada de novo. Ao invés, continuou a prossecução do ardil que tem levado a cabo nas últimas décadas, que é a extenuação do que vai restando da Palestina. Invocam-se os mesmos motivos para esta renovada ofensiva que regularmente se têm utilizado para justificar as agressões precedentes, socorrem-se dos mesmos meios para conduzir a carnificina, para derramar o ódio e para quebrar o ânimo dum povo que já não sabe o que é viver sem a ameaça contínua do terror. Embora enunciem que a sua retaliação é defensiva, que foi do outro lado que veio o primeiro ataque, que o Hamas nunca reconheceu a existência do Estado de Israel, na verdade, este governo mente, sendo manifesto que o objectivo íntimo de Israel nesta excursão é o de dar um passo em frente na destruição da Palestina.

3 Existe, no seio da sociedade israelita, todo um conjunto de vozes discordantes da política e da prática do terrorismo de Estado praticado pelos governantes na região do Próximo Oriente. Gente que escreveu, que filmou, que discursou, que utilizou o espaço público para declarar que, cada vez mais, a necessidade de paz é urgente. Por sua vez, a opinião pública europeia também ocupou as ruas, solidarizando-se com os palestinianos e dizendo aquilo que a União Europeia não soube e não quis dizer. 

4 Importa realçar que do envolvimento da União Europeia neste episódio de périplo bélico não resultou nada de profícuo. Por um lado, houve um alinhamento explícito com a ignóbil investida israelita, por outro, ficou uma vez mais patente que, no contexto da alta geopolítica internacional, os pareceres dos seus dirigentes pouco ou nada valem.

5 Do que resta de Bush e dos neocons vieram os ventos do costume. A questão essencial consiste, neste momento, na não posição de Obama. Em política, por norma, uma não posição equivale, na verdade, a uma posição, neste caso, a uma posição de condescendência. Averiguaremos, a partir de 20 de Janeiro, qual será o posicionamento efectivo desta nova Administração. No entanto, os indícios não auguram que, no que diz respeito ao apadrinhamento que os Estados Unidos têm prestado e continuam a prestar a Israel, uma mudança palpável e concreta venha a ter lugar.

6 Enquanto a Comunidade Internacional não tiver um papel activo e construtivo na resolução do conflito, o que passa, em larga medida, no reconhecimento à existência de um Estado palestiniano viável e no recuo da ocupação israelita, a tragédia continuará a grassar. E enquanto, na Palestina e no Médio Oriente, as bombas continuarem a cair e as populações permanecerem na miséria, o sentimento de devastação, desencanto e revolta persistirão entre os povos da região. E é precisamente nesse contexto que o terrorismo encontra melhores condições para se inflamar.

Natasha Nunes

{easycomments} 

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.