Um manguito à Bordalo? criar PDF versão para impressão
20-Jan-2009
Pedro SoaresA fábrica Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha, herdeira da fábrica fundada em 1884 por Rafael Bordalo Pinheiro, corre o risco de encerrar. Estão em causa cerca de 170 postos de trabalho e um património cultural sem preço. Constitui um dos símbolos do país com reconhecimento além-fronteiras, mas, sob os efeitos da crise internacional, encontra-se à beira da falência.

Na fábrica com o nome do criador do Zé Povinho não se recebe há dois meses. A quebra drástica nas encomendas, sobretudo dos Estados Unidos, determina esta situação. De facto, a precipitação dos problemas parece estar associada, em primeiro plano, à produção de louça corrente, mais massificada, onde escasseiam as encomendas. Porém, o tesouro daquela fábrica encontra-se no núcleo histórico que conserva uma quantidade impressionante de moldes das criações de Bordalo e nos seus trabalhadores que acumularam um saber ímpar.

O valor patrimonial daquele espólio é incontornável, bem como o seu valor comercial, conforme têm vindo a declarar diversos especialistas. Não se percebe porque razão os ministérios da Economia e da Cultura ainda não intervieram, no sentido de apoiar a redefinição da estratégia de produção da fábrica, assegurar a preservação do seu rico núcleo histórico e respectivo aproveitamento artístico e comercial.

Do mesmo modo, é estranho que a Câmara das Caldas não consiga, nesta matéria, passar do tradicional "sacudir a água do capote". As faianças da Bordalo Pinheiro são uma imagem de marca distintiva e valiosíssima para a região. Mesmo assim, a autarquia ainda não teve qualquer iniciativa para juntar vontades, locais e nacionais, privadas e públicas, para a dinamização de um programa integrado que salve aquele importante património.

É lamentável que assim seja e que os poderes públicos estejam a fazer uma espécie de "manguito" à fábrica Bordalo Pinheiro, tal como à crise que alastra no sector das faianças, com particular incidência e gravidade nos concelhos das Caldas e de Alcobaça. Comprova-se que este governo parece só ter disponibilidade para apoiar banqueiros e grandes grupos económicos e que a autarquia deixa à inércia do abandono um dos mais importantes patrimónios do concelho.

Os cidadãos, mais do que responderem de forma simétrica, ao governo e à câmara, com o célebre gesto do Zé Povinho, exigem de certo que os poderes públicos ajam e cumpram com as suas obrigações de preservação do nosso património comum, como é o caso, sem dúvida, do que se encontra na fábrica Bordalo Pinheiro.

Pedro Soares

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