Crónica de um suicídio anunciado: o caso de Israel criar PDF versão para impressão
23-Jan-2009
Immanuel WallersteinA estratégia de Israel está a decompor-se. O "punho de ferro" já não funciona, tal como não funcionou no caso de George W. Bush no Iraque. A ligação com os Estados Unidos vai permanecer firme? Duvido. E a opinião pública mundial vai continuar a olhar simpaticamente para Israel? Parece que não.

O Estado de Israel proclamou a sua independência à meia-noite de 15 de Maio de 1948. As Nações Unidas tinham aprovado o estabelecimento de dois estados no território que fora a Palestina sob mandato britânico. A cidade de Jerusalém devia supostamente ser uma zona internacional sob jurisdição da ONU. A resolução da ONU tinha amplo apoio, e especificamente o dos Estados Unidos e da União Soviética. Os estados árabes todos votaram contra.

Nos 60 anos da sua existência, o Estado de Israel dependeu para a sua sobrevivência e expansão de uma estratégia global que combinava três elementos: militarismo "macho", alianças geopolíticas e relações públicas. O militarismo "macho" (chamado pelo actual primeiro-ministro Ehud Olmert de "punho de ferro") tornou-se possível pelo fervor nacionalista dos judeus israelitas, e finalmente (apesar de não no início) pelo forte apoio de comunidades judaicas no resto do mundo.

Geopoliticamente, Israel primeiro forjou uma aliança com a União Soviética (que foi breve mas crucial), depois com a França (que durou mais tempo e permitiu que Israel se tornasse uma potência nuclear), e finalmente (e mais importante) com os Estados Unidos. Estes aliados, que foram também patronos, ofereceram um importante apoio militar através do fornecimento de armas. Mas também ofereceram apoio diplomático/político, e, no caso dos Estados Unidos, considerável apoio económico.

As relações públicas tinham como objectivo obter simpatia e apoio de uma ampla fatia da opinião pública mundial, baseada, nos primeiros anos, numa imagem de Israel como um David pioneiro contra um Golias retrógrado, e nos últimos 40 anos, no sentimento de culpa e de compaixão em relação ao extermínio nazi maciço dos judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Todos estes elementos da estratégia israelita funcionaram bem de 1948 até os anos 80. Na verdade, foram crescentemente eficientes. Mas, algures nos anos 80, o uso de cada uma das três tácticas começou a ser contraproducente. Israel entrou agora numa fase de precipitado declínio da sua estratégia. Pode ser tarde demais para Israel procurar qualquer estratégia alternativa e, nesse caso, terá cometido um suicídio geopolítico. Vejamos como os três elementos desta estratégia interagiram, primeiro durante a fase de sucesso e depois durante o lento declínio do poder israelita.

Durante os primeiros 25 anos da sua existência, Israel entrou em quatro guerras com estados árabes. A primeira foi a guerra de 1948-1949 para instaurar o estado judeu. A declaração israelita de um estado independente não teve equivalência numa declaração palestiniana a estabelecer um estado. Em vez disso, alguns governos árabes declararam guerra a Israel. Inicialmente, Israel encontrou-se em dificuldades militares. Contudo, os militares israelitas estavam de longe mais bem treinados que os dos estados árabes, com a excepção da Transjordânia. E, o que foi crucial, obtiveram armas da Checoslováquia, que actuou como agente da União Soviética.

Na altura da trégua de 1949, a disciplina das forças israelitas combinada com as armas checas permitiu que Israel conquistasse um território considerável que não constava das propostas de partição das Nações Unidas, incluindo Jerusalém ocidental. As outras áreas foram incorporadas pelos estados árabes. Muitos árabes palestinianos fugiram ou foram forçados a fugir das áreas sob controlo dos israelitas e tornaram-se refugiados nos vizinhos países árabes, onde os seus descendentes ainda vivem, em grande parte, hoje. A terra que eles possuíam foi tomada pelos judeus israelitas.

Cedo a União Soviética deixou cair Israel. Provavelmente isto aconteceu principalmente porque os seus líderes logo ficaram com medo do impacto da criação do estado nas atitudes dos judeus soviéticos, que pareciam demasiado entusiásticos e, assim, potencialmente subversivos do ponto de vista de Estaline. Em contrapartida, Israel abandonou qualquer simpatia pelo campo socialista na Guerra Fria, e deixou claro o seu fervente desejo de ser considerado um membro de pleno direito do mundo Ocidental, política e culturalmente.

A França nessa altura estava confrontada com movimentos de libertação nacional nas suas três colónias do Norte de África, e viu em Israel um aliado útil. Isto foi especialmente verdade depois de os argelinos terem desencadeado a sua guerra de independência em 1954. A França começou a ajudar Israel a armar-se. Especialmente, a França, que estava a desenvolver as suas próprias armas nucleares (contra os desejos dos EUA), ajudou Israel a fazer o mesmo. Em 1956, Israel juntou-se à França e à Grã-Bretanha numa guerra contra o Egipto. Infelizmente para Israel, esta guerra foi lançada com a oposição dos EUA, e Washington forçou as três potências a pôr-lhe um fim.

Depois da independência da Argélia em 1962, a França perdeu o interesse na ligação a Israel, que agora atrapalhava as suas tentativas de renovar as relações com os três novos estados norte-africanos. Foi neste ponto que os Estados Unidos e Israel começaram a forjar relações próximas. Em 1967, rebentou a guerra de novo entre o Egipto e Israel, e os outros estados árabes apoiaram o Egipto. Nesta chamada Guerra dos Seis Dias, os Estados Unidos pela primeira vez forneceram armamento a Israel.

A vitória israelita mudou a situação básica em muitos aspectos. Israel tinha ganho a guerra com facilidade, ocupando todas as partes do mandato britânico que ocupara antes, mais a península egípcia do Sinai e as colinas do Golã sírias. Juridicamente, havia agora um Estado de Israel mais os territórios ocupados por Israel. Israel começou uma política de estabelecer colonatos judaicos nos territórios ocupados.

A vitória israelita transformou a atitude dos judeus no mundo, que então superaram quaisquer reservas que tivessem tido em relação à criação do Estado de Israel. Ganharam enorme orgulho em relação aos feitos israelitas e começaram a empreender grandes campanhas políticas nos Estados Unidos e na Europa ocidental para garantir apoio político a Israel. A imagem de Israel pioneiro, com ênfase nas virtudes dos kibbutz, foi abandonada a favor de uma ênfase no Holocausto como justificação fundamental para o apoio mundial a Israel.

Em 1973, os estados árabes procuraram corrigir a situação militar na chamada guerra do Yom Kippur. Desta vez, de novo, Israel venceu a guerra, com o apoio das armas norte-americanas. A guerra de 1973 marcou o fim do papel central central dos estados árabes. Israel continuou a tentar obter o reconhecimento de estados árabes, e finalmente conseguiu-o, tanto com o Egipto quanto com a Jordânia, mas já era demasiado tarde para que essa fosse a forma de assegurar a existência de Israel.

Nesta altura, emergiu um movimento político árabe palestiniano, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que era agora a principal oposição a Israel, aquela com quem Israel precisava chegar a acordo. Durante muito tempo, Israel recusou-se a lidar com a OLP e o seu líder Yasser Arafat, preferindo usar o punho de ferro. E, num primeiro momento, teve sucesso militar.

Os limites da política de punho de ferro foram postos em evidência pela primeira intifada, um levantamento espontâneo dos árabes palestinianos dentro dos territórios ocupados, que começou em 1987 e durou seis anos. A intifada teve duas conquistas. Forçou os israelitas e os Estados Unidos a falar com a OLP, um longo processo que levou aos chamados Acordos de Oslo de 1993, que conduziram à criação da Autoridade Palestiniana em parte dos territórios ocupados.

A longo prazo, os Acordos de Oslo foram geopoliticamente menos importantes que o impacto da intifada na opinião pública. Pela primeira vez, a imagem de David e Golias tornou-se invertida. Pela primeira vez, começou a haver sério apoio no mundo ocidental à chamada solução de dois estados. Pela primeira vez, começou a haver críticas sérias em relação ao punho de ferro e às suas práticas em relação aos árabes-palestinianos. Tivesse Israel sido sério em relação a uma solução de dois estados baseada na chamada Linha Verde - a linha de divisão no fim da guerra de 1948-1949 - e teria sido possível chegar a um entendimento.

Mas Israel estava sempre um passo atrás. Quando podia ter negociado com Nasser, não o fez. Quando podia ter negociado com Arafat, não o fez. Quando Arafat morreu e foi sucedido pelo inútil Mahmud Abbas, o mais militante Hamas venceu as eleições parlamentares em 2006. Israel recusou-se a falar com o Hamas.

Agora, Israel invadiu Gaza, procurando destruir o Hamas. Se conseguir, que organização virá a seguir? Se, o que é mais provável, não conseguir destruir o Hamas, uma solução de dois estados é agora possível? Tanto a opinião pública palestiniana quanto a mundial está a mover-se para uma solução de um estado. E isto é, evidentemente, o fim do projecto sionista.

A estratégia de três elementos de Israel está a decompor-se. O punho de ferro já não funciona, tal como não funcionou no caso de George W. Bush no Iraque. A ligação com os Estados Unidos vai permanecer firme? Duvido. E a opinião pública mundial vai continuar a olhar simpaticamente para Israel? Parece que não. Pode Israel mudar agora para uma estratégia alternativa, de negociação com os militantes representantes dos árabes palestinianos, como parte integrante do Médio Oriente, e não como um posto avançado da Europa? Parece muito tarde para isso, possivelmente demasiado tarde. Portanto, eis a crónica de um suicídio anunciado.

Immanuel Wallerstein

Comentário nº 249, 15/1/2009

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