Freeport: ilações políticas criar PDF versão para impressão
24-Jan-2009
João Teixeira LopesÁ política o que é da política; à justiça e à investigação criminal o que lhe pertence. Não cabe, por enquanto, aos partidos políticos, qualquer alvitre ou posição sobre o decorrer do processo.

José Sócrates tem todo o direito em exigir celeridade. No entanto, ao falar explicitamente em calendários políticos da investigação (a putativa coincidência com os anos eleitorais) construiu um implícito que não teve coragem de desenvolver. Nada se deve ocultar ou insinuar. A primeira palavra deve levar à última. Os não-ditos alimentam o rumor, criam a dúvida e lançam a confusão.

Que a justiça em Portugal é selectiva e fracamente orientada para o combate aos crimes de colarinho branco parece já ser um triste lugar comum. Não fosse esse o caso e o Procurador-Geral da República não teria de jurar a pés juntos que qualquer investigação irá até ao fim, seja o visado um pedreiro ou um ministro.

O mais importante, todavia, assenta na prática política que este caso desoculta. Aprovar projectos polémicos poucos dias antes de um Governo deixar de exercer funções mina a qualidade da democracia. Por esse facto, o Governo Guterres e o seu Ministro do Ambiente merecem uma viva reprovação política.

De igual modo, a autorização para a construção de mais um mamarracho do «urbanismo-espectáculo» ou de «ficção» que vai medrando no nosso país, ainda por cima em pleno estuário do Tejo, vale, de igual modo, o mais veemente repúdio político e diz muito de quem o autorizou.

O caso Freeport abarca também, uma vez mais, o branqueamento e transferência de capitais em paraísos fiscais. Que José Sócrates proclame, na sua moção ao Congresso do PS, uma pia vontade de os eliminar, mas não ouse tocar no offshore da Madeira é algo que provém da mais pura hipocrisia política.

João Teixeira Lopes

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