Lisboa, Gaza e o patriarca criar PDF versão para impressão
23-Jan-2009
Pedro SoaresA Assembleia Municipal de Lisboa decidiu recomendar à Câmara que diligencie no sentido da celebração de um acordo de geminação com Gaza, como um "contributo para o fim da agressão contra o povo da Palestina e um incentivo a uma solução de paz na região de Gaza, através do efectivo reconhecimento do Estado Palestiniano, incluindo a Cisjordânia e a Faixa de Gaza".

Trata-se de um pequeno gesto de grande dimensão. A defesa desta proposta, pelo deputado municipal Jorge Nascimento Fernandes (BE), não esconde as contradições que atravessam o território e a complexidade do conflito, nem passa ao lado do papel do Hamas. Mas coloca a um nível incontornável aquilo que deve mobilizar a consciência humana: o fim do sofrimento de um pequeno povo, sujeito a uma espécie de punição colectiva na sua própria terra, ocupada por um dos exércitos mais poderosos do mundo.

Espera-se que a Câmara de Lisboa cumpra a recomendação da Assembleia Municipal, apesar de os deputados municipais do PS se terem ficado pela abstenção. Lisboa inaugurou há pouco tempo um memorial às vítimas da intolerância, a propósito do terrível massacre dos judeus do Século XVI, no Largo de S. Domingos, e declarou-se Cidade da Tolerância, solidária e multiétnica. É essa mesma solidariedade que está ao nosso alcance dar aos palestinianos.

Foi precisamente este sentido de fraternidade que sofreu um enorme revés pelas recentes palavras do cardeal patriarca de Lisboa, recomendando às mulheres portuguesas que não casem com muçulmanos. Num momento de grave crise no Médio Oriente, onde alguns procuram que as questões religiosas se sobreponham às que de facto estão em causa, foram palavras inoportunas e que nem sequer correspondem a um problema sentido pela nossa sociedade. Foram declarações que, infelizmente, tiveram repercussão internacional e é natural que a comunidade muçulmana de Lisboa tivesse ficado magoada.

No Ano Internacional da Reconciliação, será uma honra para Lisboa estabelecer uma relação de cooperação com Gaza, através do desenvolvimento de um laço institucional de amizade e fraternidade. É este o sinal que Lisboa precisa de dar ao mundo.

Pedro Soares

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