A Controlinveste e a ameaça colectiva criar PDF versão para impressão
28-Jan-2009
Tiago GillotNo passado dia 15 de Janeiro, a Controlinveste anunciou, em comunicado, o despedimento colectivo de 122 trabalhadores e trabalhadoras (cerca de metade são jornalistas). Ao lê-lo, quase fica a ideia de que se trata duma pequena empresa, atravessando dificuldades. Na verdade, trata-se dum dos grandes grupos económicos na área dos media em Portugal:

Com origem na Olivedesportos, a Controlinveste detém vários órgãos de comunicação social - na rádio, na televisão, nos jornais e na internet -, reforçada com a compra, em 2005, da Lusomundo. António Oliveira detém hoje a rádio "TSF", a "SportTV", o "Jornal de Notícias", o "Diário de Notícias", o "24 Horas", o (jornal gratuito) "Global Notícias", as revistas "Evasões" e "Volta ao Mundo", mas também os regionais "Açoriano Oriental", "Jornal do Fundão" e o "Diário de Notícias da Madeira", além da participação accionista na Agência Lusa e da presença no sector da impressão (as gráficas "Funchalense" e "NavePrinter") e da distribuição ("VASP" e "Notícias Direct").

A lista é exaustiva, talvez - e, para estar completa, era preciso falar da participação em outros ramos de actividade (turismo, telecomunicações, clubes de futebol, "direitos desportivos", etc). Nomeá-la serve para avaliar a dimensão do negócio e, mais preocupante, a concentração que ele representa.

Uma concentração autorizada por sucessivos Governos, que cresce e ameaça a liberdade de imprensa e, portanto, o direito à informação. Aliás, o jornalismo em Portugal é crescentemente feito sob a chantagem da precariedade nas redacções - o que, além de tudo o resto, banaliza as "cedências editoriais", conforme aponta um estudo recente. Além disso, muita gente está hoje obrigada a produzir conteúdos para vários órgãos (do mesmo grupo) em simultâneo, sem que o possa discutir ou ser paga por isso - o que estrangula diversidade das fontes de informação e ajuda certamente a explicar os despedimentos na Controlinveste e noutros grupos.

É preciso dizer que a cada despedimento corresponde a sobre-exploração dos e das que ficam (porque terão que trabalhar mais). Mas também de quem chega hoje às redacções (ou a outro sítio qualquer) para trabalhar, porque só pode esperar a precariedade, que baixa salários, subtrai direitos e ainda serve para ameaçar quem, por enquanto, lhe escapou.

"É hoje impossível ignorar a profunda retracção dos mercados de media": assim se justifica, no referido comunicado, a administração da Controlinveste, um grupo económico que lucra milhões todos os anos. As costas largas do mercado são os nossos direitos a apertar. A "onda de aproveitamento" de que fala Oliveira Martins, o insuspeito presidente do Tribunal de Contas, é a impune violência dos poderosos sobre quem vive (ou sobrevive) do seu trabalho (quando o tem).

Ironicamente, no "Jornal de Notícias" perguntava-se, no passado domingo, se há alternativas aos despedimentos colectivos. É uma pergunta urgente para aquela redacção, mas também para todas as outras do grupo Controlinveste e para quem trabalha nas muitas empresas por esse país fora onde se vão dispensando trabalhadores e trabalhadoras aos magotes.

As respostas, não sendo fáceis, são decisivas. Na sequência desta tentativa de despedimento colectivo na Controlinveste, o Sindicato dos Jornalistas mantém uma intervenção sobre o tema (ler comunicados aqui, aqui ou aqui), estão agendados plenários de trabalhadores e trabalhadoras do grupo para Lisboa e para o Porto e a petição Não Calem o JN! está a recolher assinaturas através da internet. Sinal que é possível imaginar um desfecho que a "retracção do mercado" (e o dilatado descaramento de quem com ele ganha alarvemente, à custa das nossas vidas) não previu. Porque, como alguém dizia, não se cortam jornalistas como se corta uma notícia.

Tiago Gillot

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