Deus lhe pague criar PDF versão para impressão
04-Fev-2009
Alice Brito

"Joe Berardo foi salvo pela banca quando três das quatro instituições a quem devia dinheiro pela compra de mil milhões de euros em acções do BCP, aceitaram uma renegociação altamente favorável ao investidor."

Expresso, 24/01/09

Os olhos percorrem a notícia e asseguram-se de que não há erro.

Berardo, o comendador Berardo, o banqueiro Berardo, o mecenas, o esteta de gola alta preta e um tagarelar perto do português, o milionário que tinha certezas e opiniões sobre tudo e todos, com discursos variados a passearem-lhe pela língua solta, correu o sério risco de falir, tendo sido os bancos amigos que lhe deram uma mãozinha.

Berardo pediu dinheiro à Banca para a compra de acções no BCP, aquele conhecido campo de batalha em que se travaram combates vorazes afins do canibalismo financeiro.

Berardo perdeu milhões nesta compra feita com dinheiro emprestado pela Banca e foi a mesma Banca, sua credora, que lhe renegociou a dívida em condições altamente favoráveis para o devedor.

Entre esses bancos piedosos emerge, coberta por um véu de clemência, a Caixa Geral de Depósitos, o banco do Estado.

Sabemos todos que entre a Banca e a Santa Casa da Misericórdia não há grandes diferenças. A banca é afável e compreensiva, solidária, indulgente, banca amiga, magnânime e generosa, sempre pronta a conceder novas oportunidades a todos estes heróis monetários, cruzados da especulação, artistas do lucro. A sensibilidade do sistema bancário comove e enternece.

É certo que a Banca é inflexível, melhor dizendo, espartana, com todos aqueles que trabalham uma vida inteira para lhe pagarem um único empréstimo - o empréstimo da casa, o mútuo para habitação, isto é, a dívida que se contrai devidamente escriturada e garantida, e que de repente, sem que o devedor tenha feito nada para isso, incha com desmesura arrepiante até estourar no centro dos sonhos perdidos da propriedade de uma casa para morar.  

Para esses, com a destreza felina que se lhe conhece, a Banca exige, cobra, impõe regras, decreta procedimentos, as unhas afiadas a enterrarem-se na eterna carniça do salário mensal.

Mas ao saber-se destes pequenos gestos de amor pelo próximo, esquecemo-nos das canalhices bancárias que se têm abatido sobre o cidadão comum e ficamos com o coração apaziguado.

Sempre na peugada do ágio, da comissão, da transacção especulativa, Berardo é sem dúvida uma vítima deste sistema cruel, já que tem sido sucessivamente assaltado pela desmesura da ambição e pela toxicodependência dos maus produtos financeiros, adquiridos nesse espaço chamado mercado, esse território até há pouco intocável e soberano e agora duvidoso e tutelado.

Segundo o Expresso a Caixa facilitou pagamentos, concedeu moratórias, recebeu garantias inidóneas. O banco do Estado.

Na paisagem emocional da crise, aparecem pérolas como esta.

Joracy Camargo, dramaturgo brasileiro, na sua peça intitulada "Deus lhe pague" conta-nos a história de um mendigo milionário que pedia esmola nas portas das igrejas convencido que estaria a cobrar da sociedade aquilo que ela lhe devia. Assim é o comendador. Bem nos pode dizer exactamente essa frase típica do mundo da esmola, em que se endossa a dívida a uma entidade divina. E de facto, nestes casos da alta finança, se não forem os deuses a pagarem-nos, podemos esperar sentados.

Alice Brito

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