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04-Fev-2009
Miguel PortasJá toda a gente percebeu que a salvação da Qimonda Portugal não vai ser fácil. Ao contrário de outras fábricas de multinacionais, esta até pode, no limite, ser nacionalizada. O que dificilmente poderá é continuar a vender o que produz.

A culpa não é da crise, embora esta esteja a colocar uma pressão adicional sobre os volumes de produção e, portanto, sobre o custo unitário de cada mercadoria. O problema é o do capitalismo globalizado. Pura e simplesmente, é impossível vender semi-condutores a preços chineses praticando salários portugueses. Esta é a raiz do problema. O problema da reconversão é, portanto, indissociável do da recuperação.

O que é válido para a Qimonda é-o, mutatis mutandi, para um vasto sector das produções industriais.

O primeiro-ministro andou anos a "vender" aos portugueses que as empresas-modelo eram as tecnologicamente mais avançadas e viradas para a exportação. Nelas residiria a chave da própria modernização do país. A segunda lição que devemos tirar da Qimonda é o de que empresas com elevado conteúdo tecnológico não são boas ou más para o país em abstracto, mas no concreto. Se dependerem de mercados exportadores que assentam as suas vantagens comparativas apenas no custo do salário, podem revelar-se mais frágeis do que modestas e conservadoras fábricas capazes de diversificar destinatários e produtos.

Dito isto, há emergências e estratégias.

A emergência é correr atrás do prejuízo e encontrar uma saída para a fábrica portuguesa que proteja os empregos.

A estratégia é o que pode garantir que, no futuro, não se repitam outras Qimondas. Não o conseguiremos sem pôr em causa as actuais regras da liberalização do comércio internacional, que se limitam a uma só: que o capital faça como melhor lhe aprouver.

British jobs

Uma companhia italiana ganhou um concurso internacional para uma refinaria em Inglaterra e contratou trabalhadores de várias nacionalidades europeias. Os operários britânicos querem que eles voltem ás suas terras e pelo menos 20 portugueses já o terão feito. Num contexto de desemprego, esta tende a ser a reacção por todo o lado. A crise coloca trabalhadores contra trabalhadores e alimenta velhas reacções proteccionistas.

Têm razão os que reclamam "british jobs, british workers"? Digamos que erram, embora por boas razões.

Na substância, a sua exigência tem, num plano estritamente nacional, tudo a ver com o que se passa na Qimonda. A multinacional alemã está na falência por causa dos custos de produção asiáticos; a refinaria britânica contrata trabalhadores que não são ingleses, porque oferece trabalho temporário cujos custos são inferiores.

E na China...

Sucede que outra notícia do dia é a que nos confirma terem 20 milhões de trabalhadores temporários chineses perdido os seus empregos em 2008. Vinte milhões. Eles não são menos nem mais do que os trabalhadores portugueses ou britânicos. Apenas se encontram na base da cadeia de salários e protecção social. É simplesmente inconcebível que a esquerda, ante a crise, responda "cada um que trate de si", porque, no fim, todas as fraquezas se tramam e só se salvam os mais fortes.

Das soluções

É altura de todos compreendermos que nem a globalização que temos tido, nem o somatório de proteccionismos nacionais nos levarão a algum lado, senão ao sofrimento. A emergência das emergências é internacional. É possível salvar milhões e milhões de empregos que se encontram em risco só e só se a ameaça do proteccionismo se transformar na alavanca que permita, no comércio internacional, chegar a um contrato de soma positiva. Basicamente, o que está em causa é exigir padrões de direitos sociais e exigências ambientais como condição da mundialização. Este é o caminho que permite "nivelar por cima". Para ele ser possível, o primeiro mundo precisa, em contrapartida, de abrir os cordões à bolsa para proteger os seus empregos, protegendo os dos países emergentes. O aumento do desemprego na China não é apenas catastrófico para os chineses. Ele acentua a pressão para a baixa do custo dos salários nesse país e, em consequência, agrava a competividade internacional e o desemprego na Europa. A Europa sabe onde pode ir buscar os recursos que podem financiar esse contrato de nivelamento por cima - ao fim dos off shores, à penalização exemplar das aplicações especulativas em bolsa e à subordinação do sector financeiro a prioridades de interesse público. Basta querer. Nessa altura, os trabalhadores ingleses deixarão de reclamar os seus empregos contra os empregos dos outros, porque saberiam que tinham uma Europa comprometida com o Trabalho.

Miguel Portas, artigo publicado no blogue Sem Muros

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