As “Cidades Delicodoces” criar PDF versão para impressão
06-Fev-2009
Bernardino Aranda"O centro comercial irá situar-se em Lisboa e não na periferia, terá uma área de 40 mil metros quadrados, um hipermercado, e envolverá um investimento de 90 milhões de euros" disse à Lusa o Administrador da Redland, empresa de investimentos imobiliários.

O anúncio algo misterioso, porque nada mais é conhecido, de um novo mega centro comercial na cidade, vem lembrar-nos que há mais inconvenientes nestes ‘Shoppings' para além das crises de ansiedade que podem provocar nos investidores, governantes e familiares, enquanto esperam pelos estudos de impacto ambiental...

A abertura de centros comerciais, regra geral, "seca" todo o comércio tradicional em volta. Ou o comerciante se sujeita a deslocar para o Centro Comercial ou pode estar condenado ao desaparecimento.

Nos centros comerciais as lojas estão todas juntas, há sempre lugar para estacionar, o ambiente é metodicamente climatizado, a luz é a ideal, a musiquinha é suave, não há gente a pedir e há videovigilância e funcionários da segurança por toda a parte.

No Freeport de Alcochete é proibido "tocar ou cantar qualquer tipo de música" e os visitantes "devem estar devidamente vestidos". Mas em troca desta "cidade delicodoce", que atrai muitos clientes para o passeio de fim-de-semana ou final de tarde, são exigidas rendas de milhares de euros. Quem sobrevive? Não o pequeno comércio familiar, mas sim as grandes multinacionais e franchisings, capazes de esmagar custos operacionais, nomeadamente de pessoal.

Quando foi inaugurado o centro comercial do Campo Pequeno, em 2006, o país já tinha superado muito a média europeia de área de centros comerciais per capita. Ao mesmo tempo, segundo a Confederação de Comércio e Serviços de Portugal, nos últimos 15 anos, a quota de mercado do comércio independente caiu de 85% para 15%.

Por outro lado, uma cidade sem "comércio tradicional" é uma cidade que morre. As pessoas deixam de andar pelas ruas, as ruas tornam-se desertas, mais inseguras menos aprazíveis.

É como que um ciclo vicioso, que transforma o rosto da cidade, que afasta o cidadão da vida pública e que o converte cada vez mais em mero consumidor que deambula pelos grandes espaços privados de uso colectivo que são os ‘Shoppings'.

Será talvez por isso que as risíveis normas de conduta dos centros comerciais e a progressiva privatização dos espaços públicos da cidade são hoje toleradas e aceites por tanta gente?

Bernardino Aranda

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