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07-Fev-2009
João Teixeira LopesNão temos a receita mágica da transformação do mundo ou da transcendência do capitalismo. Não sabemos transmitir receitas, criar breviários ou difundir doutrinas. Não exigimos fé ou crença. Recusamos instrumentalizar aliados ou criar correias de transmissão. Aceitamos tendências e respeitamos diferenças. Praticamos a dúvida metódica. Caminhamos por ensaio e erro e perscrutamos novos caminhos.

Experimentamos onde outros têm medo. Todavia, nunca perdemos o sentido do lugar. Sabemos onde estamos e de onde partimos, respeitando e reavivando a memória. Dizemos sempre quem somos e ao que vimos: não temos medo nem medo do medo. Atrás de nós temos os movimentos operários, as sufragistas, os resistentes aos fascismos e ao gulag, os activismos gay, lésbico e queer: todas as derrotas e vitórias nos pertencem, porque nelas aprendemos...

Sabemos com quem estamos: os explorados e as exploradas, em todas as dimensões da existência humana e em qualquer ponto do planeta. Sabemos que é preciso criar movimento, engrossar o caudal das lutas e combates, desconfiar do facilitismo, resistir no refluxo, fracturar na unanimidade e, se necessário, contra as vulgatas de senso comum institucionalizadas. Queremos chegar ao maior número sem trair convicções.

Apostamos na comunicação como construção de pontes e apreciamos o acto de as atravessar, entrando onde era suposto ficarmos à porta e sentando-nos à mesa mesmo sem sermos convidados pelos poderosos deste mundo. Trabalhamos no instituído, mas desejamos o instituinte; corremos por dentro e por fora, transgredimos porque saltamos fronteiras. Defendemos reformas, porque trabalhamos para a revolução. Desconfiamos do bom gosto e das boas maneiras, apenas por que tem de ser. Detestamos, aliás, «o que tem de ser» e todos os dias comemos fatalidades ao pequeno almoço. Estudamos nos livros e nas ruas; aprendemos a defender propostas, para além da crítica e da denúncia. Apreciamos a competência, a credibilidade e a confiança que é necessário conquistar para sermos bem sucedidos. Vivemos em Portugal, mas habitamos a Europa e o Mundo. Somos cosmopolitas, mas defendemos, sempre que necessário, causas localizadas.

Nesta geometria variável que tanto os irrita e confunde, somos esperança para muitos e muitas. Hoje, como no primeiro dia, com o tempo, no tempo, contra o tempo, nas encruzilhadas e bifurcações, contra as ruas de sentido único e os becos sem saída. Bom dia, Bloco de Esquerda!

João Teixeira Lopes

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