Demasiado poderosos para errar, demasiado poderosos para ir para a prisão criar PDF versão para impressão
09-Fev-2009

Amy GoodmanRecentemente, Karl Rove descreveu George W. Bush como sendo um amante dos livros, dizendo que "há um mito, perpetuado pelos críticos de Bush, que afirma que Bush preferiria queimar um livro do que o ler." Vão escrever-se muitos artigos e relatórios sobre o governo Bush. A que fontes se vai recorrer para o fazer? Sob o mandato de Bush, a Casa Branca foi judicialmente processada por extraviar e-mails e por violar leis que protegem os registos públicos. Poucos dias antes de Bush terminar o seu mandato, um juiz federal ordenou que os computadores da Casa Branca fossem inspeccionados a fundo, a fim de descobrir os correios electrónicos. Segundo informou, trezentos milhões de mensagens de correio electrónico tinham sido transferidas para os Arquivos Nacionais, mas outros 23 milhões de mensagens continuavam "extraviadas". Dick Cheney, devido a uma lesão que sofreu nas costas, quando deslocava caixas durante a mudança do seu gabinete, deixou a vice-presidência numa cadeira de rodas. No seu intento de confiscar informação, Cheney não apenas deixou lesado um país, como acabou ele mesmo lesionado. Cheney também tentou descobrir uma falha judicial favorável que lhe permitisse decidir que registos poderiam manter-se confidenciais.

George Stephanopoulos questionou Barack Obama sobre a possibilidade de levar a tribunal funcionários do governo Bush. Obama disse: "Ainda estamos a avaliar de que forma procederemos no que se refere a interrogações, detenções e outros factos. ... Não creio que haja ninguém acima da lei. Mas, por outro lado, também tenho a convicção de que precisamos olhar para a frente e não ficar com a atenção posta no passado. ... Devemos concentrar-nos em fazer as coisas bem no futuro, em vez de preocuparmo-nos com o que aconteceu mal."

A escritora especialista em temas jurídicos Karen Greenberg assinala na revista Mother Jones que: "A lista de potenciais violações jurídicas é, obviamente, enorme; de acordo com uma estimativa, o governo teria violado 269 leis, entre normas de direito nacional e internacional."

Tortura, escutas telefónicas e "rendição extraordinária": são apenas alguns dos delitos sérios denunciados. Mais do que ninguém, o presidente Obama tem agora o poder para investigar.

John Conyers, Presidente do Comité Judicial da Câmara de Representantes, acaba de referir Karl Rove no marco de uma investigação sobre a politização do Departamento de Justiça e o processamento do ex-governador de Alabama Don Siegelman. Até agora, Rove tinha invocado o privilégio executivo para evitar as menções do Congresso. Num comunicado de imprensa, Conyers disse: "Continuarei com esta investigação até à sua conclusão, seja ela no Congresso ou no foro judicial. ...A mudança chegou a Washington, e espero que Karl Rove esteja preparado para ela."

A Presidenta da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, que no passado impediu a realização de audiências de julgamento político, agora pelo menos reclama uma investigação. Declarou à Fox News: "Creio que temos de aprender com o passado e não podemos deixar passar a politização de, por exemplo, o Departamento de Justiça, sem investigá-la. ... Quero que a verdade seja apurada."

E porque não dar um passo suplementar?

O deputado democrata de Ohio Dennis Kucinich, que encabeçou no Congresso o pedido de julgamento político contra Bush e Cheney, requereu "a formação de uma Comissão Nacional de Verdade e Reconciliação que teria a faculdade de obter testemunhos e reunir documentos oficiais que não só revelem à população dos Estados Unidos o engano subjacente que nos dividiu, mas que nesse processo de procure a verdade colocando o país no caminho da reconciliação."

Milhões de pessoas cumpriram sentenças em prisões norte-americana por delitos muito menores que os que se atribuem ao governo Bush. Pareceria que alguns criminosos são como os bancos que se consideram demasiado poderosos para, entre outras coisas, falhar: são demasiado poderosos para ir para a prisão, são demasiado poderosos para ser julgados. E se aplicarmos a teoria jurídica do presidente Obama ao cidadão comum? Por quê olhar para o passado? Em nome da unidade poderíamos perdoar delitos, tanto grandes como pequenos. Mas muito poucos estariam de acordo em deixar livres e sem castigo, assaltantes, violadores ou ladrões que roubam lojas à mão armada. Então, por que dar um tratamento diferente aos que poderiam ser responsáveis por torturas, espionagem ilegal generalizada e pelo envolvimento do país em guerras que causaram incontáveis mortes?

Isto leva-nos novamente ao tema de George Bush e dos livros. A novela de Ray Bradbury "Fahrenheit 451" é uma das obras escolhidas pela campanha de promoção da leitura "The Big Read", promovida pelo National Endowment for the Arts (Fundo Nacional das Artes). Este ambicioso programa "pretende incentivar a leitura, para voltar a colocá-la no centro da cultura norte-americana." A ideia é que cidades, localidades e até estados inteiros elejam um livro e encorajem todos a lê-lo. Em "Fahrenheit 451" (a temperatura na qual o papel entra espontaneamente em combustão) os livros estão proibidos por lei. Os bombeiros não apagam incêndios, provocam-nos, queimando as casas que têm livros. Bradbury disse: "Para destruir uma cultura, não é necessário queimar livros. Basta que as pessoas deixem de lê-los." O governo de Bush, tão propício ao secretismo, já não está no poder; a transparência prometida pelo governo de Obama substitui-o. Mas a transparência só serve quando vem acompanhada pela assunção de responsabilidades.

Sem investigações públicas exaustivas, empreendidas com firmeza e que abarquem todo o espectro de delitos que se atribuem ao governo de Bush, não haverá assunção de responsabilidades, e este capítulo da História de Estados Unidos não será nunca escrito.

28/1/2009

Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.

Amy Goodman apresenta o "Democracy Now!", um noticiário internacional diário, com uma hora de duração, que é emitido por mais de 550 emissoras de rádio e televisão, em Inglês, e em 200 emissoras em Castelhano. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award", também conhecido como o "Premio Nobel Alternativo", atribuído em Dezembro, no Parlamento Sueco.

Texto em inglês traduzido para o castelhano por Laura Perez e Democracy Now. Traduzido para português Por Luísa Moreira.

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