Cometas, estrelas com cabeça e revoluções criar PDF versão para impressão
12-Fev-2009
Carlos CarujoJosé Manuel Fernandes olha para o céu. Podemos vê-lo, instalado quase tranquilamente no editorial do seu jornal. Está à espera que um cometa desapareça. Fenómeno breve no céu de que a nossa visão dispõe, o cometa tem de passar para que tudo fique na mesma.

Mais do que astronomia, trata-se de uma profissão de fé astrológica que estabelece as linhas de um destino: está escrito no céu que a política tem de ser sempre assim. E, no seu firmamento, não há espaço para o Bloco de Esquerda. Porque um firmamento quer-se firme e arranjado: à esquerda do PC há um espacinho mas só se consegue encaixar lá, diz Fernandes, um totalitarismo minúsculo; entalado entre o PC e o PS também se arranja um espacinho mas para ficar aí o cometa tinha de ter o rabo preso pela "responsabilidade". Mais nada.

Quem fala desta responsabilidade, olha para o céu por um prisma que transforma o poder no paraíso político. No mesmo jornal, São José Almeida caracteriza o Bloco de Esquerda como "um grupo radical (...) que se habituou a desejar o céu e a ir ganhando, pedacinho a pedacinho, o seu lugar no sistema." Outra versão da mesma metáfora, o mesmo sistema-constelação a expressar o anátema de que a política só pode ser feita a pensar em pedacinhos, a desejar fatias eleitorais talhadas no céu. Sempre a condenação a querer que o céu da política institucional capitalista seja o nosso limite.

Os comentadores encartados (encartados neste tipo de mapas astrais certamente...) estranham esse fenómeno anómalo que dura há cerca de dez anos. E quando não vestem este céu de anátema trajam-no, por momentos, de falso dilema: ou estaremos condenados a ser do contra, como revolucionários mascarados que somos e iremos apenas surfando as ondas de protesto mas acabaremos sendo irrelevantes para a realpolitik (triste destino...); ou a boa da responsabilidade far-nos-ia encaixar no liberalismo e seríamos um competente grilo de um Pinóquio governamental, adorno de esquerda num governo rosa-capital.

Pois claro, vocês, se não quiserem ser cometas, preferem ser um planeta-anão ou um satélite do PS? Parece impossível que um cometa subsista, que cresça, sem que mude de qualidade...

O que os perturba é que não queiramos ganhar um lugar nesse céu, é termos os olhos rasos da luta anti-capitalista. O nosso bom velho materialismo diz-nos que para lá das alturas mal frequentadas há o chão das lutas concretas daquelas e daqueles que respondem "os ricos que paguem a crise" a quem teima em nos dizer "a crise que pague os riscos... dos ricos obviamente".

Ainda e sempre José Manuel Fernandes, porta-voz do senso comum jornalístico, coloca-nos do lado dos ricos de má consciência e, adivinha-se, não há nada pior do que traidores de classe... Chama-nos "netos caviar do Maio de 68". Mas, ora ovas, a verdade tende a desmenti-lo porque somos rafeiros com gosto, somos desempregadas e desempregados, que somos o precariado, que somos imigrantes, que somos professoras e professores em desobediência civil pelo direito a ensinar. E tantas e tantos outros. Somos todo o espaço das lutas todas e ainda queremos juntar forças.

E queremos levantar os olhos para que a vertigem da luta não ameace derrubar a vontade e o optimismo necessários à luta. Temos um horizonte. Respondia ao mesmo jornal Miguel Portas: "propomos um horizonte: a supressão do capitalismo." Não se preocupem senhores comentadores, cosendo o chão das lutas a este horizonte, não faltará espaço para o Bloco de Esquerda: enquanto este chão não nos faltar e nós não lhe faltarmos, enquanto o horizonte socialista lá estiver e nós trabalharmos para ele.

E o vosso céu pode esperar sentado ou desesperar. Pode esperar que claudiquemos e façamos parte dos cálculos do poder capitalista. Pode esperar que encerremos a nossa vida no sistema fechado das vossas expectativas. As vistas curtas vêem sempre apenas um cantinho institucionalizado e provinciano da realidade. Só que nós moramos noutro mapa celeste. Quando não conseguirem encaixar a excêntrica estrelinha com cabeça, lembrem-se de que há uma constelação anti-capitalista e de que à rota de um astro chamavam os antigos revolução. Essa é a nossa trajectória.

Carlos Carujo, professor de filosofia do ensino secundário, blogue: carujo.webnode.com

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