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14-Fev-2009
José SoeiroVale a pena ir ver Milk. Não apenas pela extraordinária interpretação de Sean Penn. Mas também porque é um filme que nos toca e nos ensina muito. É um filme sobre um homem e sobre uma rua, mas é mais do que isso.

Tem a história de um movimento, ao mesmo tempo que não é um filme apenas sobre o passado, porque nos interpela. A votação na Califórnia contra os direitos dos homossexuais, no mesmo dia da eleição de Obama, vem-nos lembrar isto mesmo.

O filme retrata, basicamente, o percurso de Harvey Milk desde que, chegado a São Francisco nos anos 70 com o seu namorado, se viu empurrado para o activismo. Assistimos à pujança da discriminação e percebemos a força que o movimento ganhou quando os gays se apercebem do seu poder enquanto consumidores. As primeiras campanhas de organização de um mercado rosa ou de alianças com sindicatos para boicote a determinados produtos fazem o seu caminho e mostram no filme o seu impacto.

Mas o filme mostra-nos também como nasce um movimento, uma identidade colectiva em torno da condição a que uma orientação sexual minoritária remete as pessoas na nossa sociedade: o confronto com a polícia, a violência quotidiana muitas vezes com a cumplicidade das forças de segurança, as redes de sociabilidade relativamente clandestinas, as estratégias colectivas de defesa, a construção de uma área crescentemente libertada - uma zona de autonomia dentro da sociedade homofóbica... Tudo isso está lá.

A dificuldade da vida quando a urgência do activismo toma o tempo todo, nomeadamente o tempo do amor e das pequenas coisas, está também neste filme. Como está essa profunda ligação entre a política e a vida que as lutas deste tipo necessariamente envolvem. Como diz Milk a certa altura, a luta pelos direitos dos gays não era apenas uma discussão sobre empregos ou sobre ideologia: era uma discussão sobre os gays, as lésbicas e os e as trans terem o direito a viver e a ter lugar naquele país e neste mundo, condenados que estão, tantas vezes, ontem como hoje, à violência que os maltrata ou que os mata, ao suicídio e à impossibilidade de serem livremente quem são - e felizes.

Milk não é um revolucionário na definição que muitos temos da palavra. No filme, percebe-se que Milk não está muito preocupado em alterar radicalmente as regras do jogo político: ele adapta-se às lógicas da campanha e, uma vez eleito, às lógicas da negociação de leis, da troca de apoios, do jogo mediático e de construção da simpatia popular, da contenção da radicalidade da raiva das multidões na rua. Usa pragmaticamente todas as lógicas do sistema a favor da sua causa. Mas isso, em si mesmo, não parece ser o mais importante naquele filme. Milk é ali, sobretudo, um homem de coragem e, nesse sentido profundo, certamente um revolucionário. Alguém que faz da sua identidade uma luta e que se vê, mais do que um político a tratar da sua vida, como uma voz do movimento nas instituições. Algumas das cenas mais comoventes do filme são as que o põem no meio desta confusão, com os dramas da vida a bater-lhe à porta, como batem à porta de todos os que já se envolveram nestes combates - por exemplo, jovens que lhe telefonam a dizer que foram expulsos de casa, ou que se querem matar ou a tentar perceber se, como sempre lhes disseram, o insulto é a única forma que têm de se definir.

Em Portugal, estamos ainda muto atrasados nesta matéria. Não apenas pela discriminação feroz que sectores conservadores continuam a fazer, como a Conferência Episcopal, que não cessa de incitar ao ódio, à intolerância e à exclusão, mas também porque a sociedade portuguesa é de uma enorme hipocrisia. Das nossas figuras públicas homossexuais, dos deputados aos actores, temos ainda demasiado poucas a dar a cara contra a discriminação afirmando que "eles somos nós". E isso é simultaneamente uma causa e uma consequência do atraso: as pessoas sentem-se menos à vontade e, mantendo a invisibilidade, não forçam as mudanças.

No filme Milk, há uma intensa discussão no meio de uma campanha em que o protagonista diz esta coisa simples para um grupo de activistas. É importante dizer gay e é importante que muita gente se assuma, por uma razão simples: é que assim a generalidade das pessoas percebe que os homossexuais não são seres estranhos a viver noutro planeta, mas os amigos, os vizinhos, os vendedores, os colegas de trabalho, os deputados em que votaram e os professores dos miúdos lá na escola. São as pessoas a quem todos nós apertamos a mão normalmente todos os dias. Quando olharmos para o lado e percebermos isso, metade do caminho contra a homofobia estará percorrido.

José Soeiro

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