O chefe ficou louco criar PDF versão para impressão
10-Fev-2009

Uri Avnery169 anos antes da guerra de Gaza, Heinrich Heine escreveu um poema premonitório, sob o título "Para Edom". O poeta judeu-alemão falava da Alemanha, ou talvez de todas as nações da Europa cristã. Eis o que ele escreveu (aqui na minha tradução tosca):

«Por mil anos e mais
tivemos um pacto
Você deixa-me respirar
Eu aceito a sua raiva louca

Por vezes, quando os dias se tornam mais sombrios
Você é tomado de humores estranhos
Até decorar as garras
Com o sangue vital das minhas veias

Agora a nossa amizade é mais firme
Tornando-se mais forte a cada dia
Pois a raiva já começou em mim
Cada dia mais como a sua.»

O sionismo, que surgiu cerca de 50 anos depois disto ter sido escrito, está a realizar plenamente esta profecia. Nós, os israelitas, tornámo-nos uma nação como todas as nações, e a memória do Holocausto leva-nos, de tempos a tempos, a comportarmo-nos como as piores delas. Poucos israelitas conhecem este poema, mas Israel como um todo é a sua encarnação.

Nesta guerra, políticos e generais citaram repetidamente as palavras: "O chefe ficou louco!", originalmente apregoado por vendedores de vegetais no mercado, com o sentido de "O chefe ficou maluco e está a vender tomates abaixo do preço". Mas, ao longo do tempo, o pregão transformou-se numa doutrina mortal que frequentemente aparece no discurso público israelita: para deter os inimigos, devemos comportarmo-nos como loucos, agir com excesso, matar e destruir sem piedade.

Nesta guerra, isto tornou-se dogma político e militar: só se "os" matarmos de forma desproporcional, matando mil "deles" por dez dos "nossos", entenderão que não vale a pena meter-se connosco. Será «gravado na consciência deles» (uma frase favorita em Israel nestes dias). Depois disto, eles pensarão duas vezes antes de lançar outro foguete Qassam contra nós, mesmo em resposta ao que nós fizermos, seja lá o que for.

É impossível compreender o que há de vicioso nesta guerra, sem ter em conta o contexto histórico: o sentimento de vitimismo, depois de tudo o que foi feito aos judeus ao longo dos anos, e a convicção de que, depois do Holocausto, temos o direito de fazer tudo, absolutamente tudo, para nos defendermos, sem inibições legais ou morais.

Quando a matança e a destruição em Gaza estavam no seu auge, aconteceu algo nos distantes Estados Unidos que não estava conectado com a guerra, mas tinha muito a ver com ela. O filme israelita Valsa com Bashir foi galardoado com um prestigiado prémio. Os média relataram isso com muito orgulho e regozijo, mas de algum modo cuidado para não mencionar o tema do filme. Só por si, isso foi um fenómeno interessante: saudar o sucesso de um filme, enquanto se ignora o seu conteúdo.

O tema deste filme extraordinário é um dos capítulos mais negros da nossa história: o massacre de Sabra e Chatila. Durante a I Guerra do Líbano, uma milícia libanesa cristã levou a cabo, sob os auspícios do exército israelita, um odioso massacre de centenas de indefesos refugiados palestinianos que estavam encurralados no seu campo [de refugiados], homens, mulheres, crianças e velhos. O filme narra essa atrocidade com precisão meticulosa, incluindo a nossa participação nela.

Nada disto foi sequer mencionado nas notícias sobre o prémio. Na cerimónia do festival, o realizador do filme não perdeu a oportunidade de protestar contra os acontecimentos em Gaza. É difícil dizer quantas mulheres e crianças foram mortas enquanto decorria a cerimónia - mas é evidente que o massacre em Gaza é muito pior do que esse de 1982, que levou 400 mil israelitas a saírem de casa e protagonizarem um protesto espontâneo de massas em Telavive. Desta vez, só 10 mil se levantaram para serem contados.

A comissão oficial de inquérito israelita que investigou o massacre de Sabra descobriu que o governo israelita teve «responsabilidade indirectamente» pela atrocidade. Vários altos funcionários e oficiais foram suspensos. Um deles foi o comandante de divisão Amos Yaron. Nenhum dos demais acusados, do ministro da Defesa, Ariel Sharon, ao chefe do estado-maior, Rafael Eitan, pronunciou uma palavra de arrependimento, mas Yaron expressou remorso num discurso aos seus oficiais, e admitiu: «A nossa sensibilidade estava embotada».

Sensibilidades embotadas são muito evidentes na guerra de Gaza.

A I Guerra do Líbano durou 18 anos e morreram mais de 500 dos nossos soldados. Os arquitectos da II Guerra do Líbano decidiram evitar uma guerra tão longa e com tão pesadas baixas. Inventaram o princípio do "chefe louco": destruir bairros inteiros, devastar zonas, destruir infra-estruturas. Em 33 dias de guerra, cerca de 1.000 libaneses, quase todos civis, foram mortos - um recorde que já foi batido nesta guerra ao 17º dia. Contudo, naquela guerra, o nosso exército sofreu baixas no terreno, e a opinião pública, que de início apoiara a guerra com o mesmo entusiasmo desta vez, mudou rapidamente.

O fumo da II Guerra do Líbano paira sobre a guerra de Gaza. Em Israel, todos juraram que haviam aprendido as lições daquela guerra. E a principal lição era: não arriscar a vida de um só soldado. Uma guerra sem baixas (do nosso lado). O método: usar o esmagador poder de fogo do nosso exército para pulverizar tudo o que aparecer no seu caminho e matar todo aquele que se mova na área. Matar não apenas os combatentes do outro lado, mas qualquer ser humano que possa presumivelmente albergar intenções hostis, mesmo que seja obviamente um enfermeiro de uma ambulância, um motorista de camião que transporta comida ou um médico que salva vidas. Destruir todos os prédios de onde os nossos soldados possam concebivelmente ser alvejados - mesmo uma escola cheia de refugiados, de doentes e de feridos. Bombardear bairros inteiros, edifícios, mesquitas, escolas, comboios alimentares da ONU, até ruínas sob as quais os feridos estão enterrados.

Os média devotaram várias horas à queda de um míssil Qassam sobre uma casa em Ashkelon, na qual três moradores sofreram um susto, e não desperdiçaram muitas palavras sobre as quarenta mulheres e crianças mortas numa escola da ONU, da qual «fomos alvejados» - uma afirmação que foi imediatamente exposta como uma flagrante mentira.

O poder de fogo foi também usado para semear o terror - bombardeando tudo, desde um hospital até um armazém de alimentos, desde um ponto de observação de imprensa até mesquitas. O pretexto usual: "fomos alvejados de lá".

Isto teria sido impossível, caso todo o país não estivesse infectado com sensibilidades embotadas. As pessoas já não ficam chocadas pela visão de um bebé mutilado, nem por crianças abandonadas durante dias com o cadáver da sua mãe, porque o exército não deixou que saíssem da sua casa em ruínas. Parece que já quase ninguém se importa: nem os soldados, nem os pilotos, nem os jornalistas, nem os políticos, nem os generais. Uma insanidade moral, cujo primeiro expoente é Ehud Barak. Embora até ele possa ser destronado por Tzipi Livni, que sorriu enquanto falava sobre os horripilantes acontecimentos.

Nem Heinrich Heine poderia ter imaginado isso.

Os últimos dias foram dominados pelo "efeito Obama".

Estamos a bordo de um avião e, de repente, uma enorme montanha negra surge de entre as nuvens. Na cabina, rebenta o pânico: como evitar uma colisão?

Os planificadores da guerra escolheram cuidadosamente o momento adequado: nos feriados, quando todos estavam de férias, e enquanto o presidente Bush ainda andava por aí. Mas de algum modo se esqueceram de tomar em consideração uma data fatal: na próxima terça-feira Barack Obama entrará na Casa Branca.

A data lança agora uma enorme sombra sobre os acontecimentos. O Barak israelita compreende que, se o Barak norte-americano se zangar, isso significará desastre. Conclusão: os horrores de Gaza devem parar antes da posse. Foi esta semana que determinou todas as decisões políticas e militares. Não "o número de foguetes", não a "vitória", não a "quebra do Hamas".

Quando houver um cessar-fogo, a primeira questão será: quem ganhou?

Em Israel, só se fala sobre o "quadro de vitória" - não sobre a vitória em si, mas o "quadro". Isso é essencial, para convencer a opinião pública israelita de que todo o negócio valeu a pena. Neste momento, todos os milhares de jornalistas, até ao último, foram mobilizados para pintar tal "quadro". O outro lado, evidentemente, pintará um diferente.

Os líderes israelitas jactar-se-ão de dois "feitos": o fim dos foguetes e o encerramento da fronteira Gaza-Egito (o também chamado "corredor Philadelphi"). Feitos duvidosos: o lançamento dos Qassams poderia ter sido prevenido sem uma guerra assassina, se o nosso governo estivesse pronto para negociar com o Hamas depois de ele ter ganho as eleições palestinas. Os túneis não teriam sido escavados, à partida, se o nosso governo não tivesse imposto o bloqueio mortal sobre a Faixa.

Mas o principal feito dos planificadores da guerra reside na própria barbárie do seu plano: as atrocidades terão, do seu ponto de vista, um efeito de contenção que perdurará por muito tempo.

O Hamas, por outro lado, afirma que a sua sobrevivência face ao poderio da máquina de guerra israelita, um pequeno David contra um gigante Golias, é por si só uma imensa vitória. De acordo com a definição militar clássica, o vencedor numa batalha é o exército que permanece no campo de batalha quando ela acabou. O Hamas está lá. O governo do Hamas na Faixa de Gaza continua de pé, apesar de todos os esforços para eliminá-lo. Esse é um feito significativo.

O Hamas também apontará que o exército de Israel não teve vontade de entrar nas cidades palestinas, nas quais os seus combatentes estavam entrincheirados. E de facto: o exército disse ao governo que a conquista da cidade de Gaza poderia custar as vidas de cerca de 200 soldados; e nenhum político estava preparado para isso na véspera das eleições.

O mero facto de uma força de guerrilha de alguns milhares de combatentes armados com armas ligeiras ter aguentado durante longas semanas contra um dos mais poderosos exércitos do mundo com enorme poder de fogo, parecerá a milhões de palestinianos e outros árabes e muçulmanos, e não apenas a eles, como uma vitória absoluta.

No final, será concluído um acordo que incluirá os termos óbvios. Nenhum país pode tolerar que os seus habitantes sejam expostos a foguetes disparados do lado de lá da fronteira, e nenhuma população pode tolerar um bloqueio estrangulador. Consequentemente, (1) o Hamas terá de desistir do lançamento de foguetes; (2) Israel terá de abrir de par em par as passagens entre a Faixa de Gaza e o mundo exterior; e (3) a entrada de armas para a Faixa será impedida (na medida do possível), como Israel pede. Tudo isto poderia ter acontecido sem guerra, se o nosso governo não tivesse boicotado o Hamas.

Contudo, os piores resultados desta guerra são ainda invisíveis e só serão sentidos nos anos vindouros: Israel gravou na consciência do mundo uma imagem terrível de si próprio. Milhares de milhões de pessoas viram-nos como um monstro a pingar sangue. Nunca mais voltarão a ver Israel como um Estado que busca paz, progresso e justiça. A Declaração de Independência norte-americana fala com aprovação de um «respeito decente pelas opiniões da humanidade». Esse é um sábio princípio.

Ainda pior é o impacto sobre centenas de milhões de árabes em torno de nós: não só verão os combatentes do Hamas como os heróis da nação árabe, como também verão os seus próprios regimes na sua nudez: servis, ignominiosos, corruptos e traiçoeiros.

A derrota árabe na guerra de 1948 trouxe na sua esteira a queda de quase todos os regimes árabes existentes e a ascensão de uma nova geração de líderes nacionalistas, exemplificados por Gamal Abd-al-Nasser. A guerra de 2009 pode trazer a queda da actual safra de regimes árabes e a ascensão de uma nova geração de líderes - fundamentalistas islâmicos que odeiam Israel e todo o ocidente.

Nos próximos anos, tornar-se-á evidente que esta guerra foi pura loucura. O chefe ficou de facto louco - no sentido literal das palavras.

Uri Avnery, texto publicado em Gush Shalom a 17 de Janeiro de 2009, traduzido para português por infoalternativa.org

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