Cónego Melo. Novamente criar PDF versão para impressão
18-Fev-2009
Cristina AndradeQuando votei pela primeira vez, Mesquita Machado já era presidente da Câmara de Braga há dezanove anos. Na altura, prometi a mim mesma que votaria sempre em Braga até que a Câmara mudasse de mãos. Treze anos depois, continuo a votar em Braga!

Morei no centro de Braga, a dois passos do Seminário, brincava num jardim que tinha a estátua do Pio XII e, a cinco minutos a pé, havia cinco igrejas. Estudei numa escola primária pública mas que se situava num lar gerido por freiras. No ano passado, voltei lá; o crucifixo continua na parede e a escola continua a ser pública.

Ao longo de 31 anos, assisti ao aparecimento de uma cidade feita de pontes e túneis labirínticos, de parques de estacionamento subterrâneos, de ruas transformadas em vias rápidas, de vivendas em banda e prédios inseridos num ordenamento urbanístico incompreensível, tudo construído por um punhado de empreiteiros que enriqueceram sob a protecção de Mesquita Machado.

Volto à minha cidade com frequência e surpreendo-me várias vezes. Esta semana, fiquei estarrecida ao constatar que Mesquita Machado decidiu reavivar a ideia de presentear a memória do cónego Melo com uma estátua.

Suspeito de ter estado envolvido no assassinato do Padre Max, que sempre recusou, o cónego Melo esteve ligado aos movimentos de extrema-direita que organizaram atentados bombistas contra militantes de esquerda, no pós-25 de Abril.

Falecido em 2008, o cónego Melo foi presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro, da Irmandade de São Bento da Porta Aberta e do Conselho Geral do Sporting de Braga, clube desportivo do qual Mesquita Machado faz também parte.

Em declarações proferidas no dia 11 de Fevereiro, Mesquita Machado considera o Cónego Melo "um grande bracarense" e afirma que o Largo de Monte d'Arcos "tem muita dignidade" para poder albergar a estátua de oito metros e três toneladas que está pronta há anos, aguardando colocação.

Ora, eu sou uma singela bracarense, para quem o largo em causa é conhecido como o ‘largo do cemitério' ou eventualmente, o ‘largo em frente ao D. Diogo', um colégio da arquidiocese de Braga, onde não entram crianças com trissomia 21 e onde alunos são expulsos por colocarem cartazes apelando à liberdade de expressão mas, na minha humilde condição, oponho-me totalmente a esta ou a qualquer outra ideia semelhante.

Como bracarense, recordo-me das polémicas que vão avivando a cidade, num casamento feliz entre igreja, estátuas e Câmara Municipal. Na minha primeira década de vida, surgiu a controvérsia em torno das três pirâmides colocadas na Avenida Central, evocando a visita de João Paulo II, que alguém adequadamente grafitou com as indicações ‘Quéops', ‘Quéfren' e ‘Miquerinos', lembrando os faraós das pirâmides de Gizé, no Egipto.

Na minha segunda década, foi a vez da estátua a D. João Peculiar que apresenta este arcebispo com um báculo fálico e flácido, que deu origem às mais divertidas conversas n'A Brasileira.

Agora, é a vez da estátua ao cónego Melo. Novamente. Quando achávamos que a questão já estava arrumada, eis que Mesquita Machado a faz surgir das brumas. Mas este assunto, ao contrário dos anteriores, não tem piada nenhuma. Porque não pode ter piada a perda de vidas humanas sob o explodir de bombas.

Cristina Andrade, psicóloga

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