Fazer “Cidade do Conhecimento” criar PDF versão para impressão
20-Fev-2009
Bernardino ArandaNa conferência em que se anunciou o lançamento da criação da nova Carta Estratégica de Lisboa, Jordi Borja, o conceituado urbanista catalão, realçou a importância da "cidade do conhecimento" e do desenvolvimento das "indústrias criativas" e da "nova economia", como um eixo estratégico fundamental para fazer cidade.

Apesar de ser relativamente consensual este discurso e reconhecer-se hoje a importância das indústrias criativas e do sector cultural para o desenvolvimento das cidades, não existem ideias claras sobre como passar á prática e implementar políticas urbanas concretas, capazes de potenciar essa nova economia.

É como se estivéssemos todos à espera que o mercado ou a iniciativa privada responda por si só a um apelo enunciado em belos discursos políticos.

Assim, é muito interessante que em Lisboa tenha aparecido - curiosamente por mão de um privado - um case study que mostra como é possível implementar em pouco tempo e com enorme sucesso uma "ilha criativa".

A MainSide, o grupo imobiliário que detém os 23 mil metros quadrados do complexo industrial onde funciona hoje a LX Factory, enquanto espera pelo Plano de Urbanização de Alcântara, decidiu rentabilizar activos, contribuir para a dinâmica cultural da cidade e prestigiar a zona onde no futuro espera construir e comercializar a bons preços apartamentos para habitação.

O facto de se tratarem de grandes edifícios industriais que não podem (ainda?) ser alvo de intervenções de monta, acabou por direccionar definitivamente o projecto para as áreas criativas.

Arrendando temporariamente (os contratos são de 5 anos mas podem ser denunciados antes caso o Plano avance) a bons preços, a LX Factory instala agora cerca de 50 empresas da área da publicidade, cinema, moda, design, audiovisuais, bem como ateliers de artistas.

O potencial de sinergias criadas é óbvio para todos os que trabalham no sector. É o grande trunfo da LX Factory. Foi assim lançado um ciclo virtuoso e apareceu um cluster criativo, perfeitamente integrado no tecido urbano, capaz de revitalizar toda a área envolvente e contribuir para a dinamização social, cultural e económica da cidade.

Este é um case study muito particular: Um único proprietário de uma grande área, num determinado contexto, decidiu apostar temporariamente na indústria criativa. Resultou.

Que outro grande proprietário tem interesse em dinamizar a "nova economia", de forma mais sustentada, de modo a retirar pleno proveito da geração de mais-valias para o todo da cidade? É evidente que é o Estado. A própria Câmara Municipal deve planear e passar à prática, tal como fez a MainSide.

Deve direccionar determinados bairros e edifícios (assegurando a coerência que permita a tal geração de sinergias) para o arrendamento a preços controlados a projectos da indústria criativa e do conhecimento.

Seria também desejável que esses pólos fossem próximos de centros universitários e caso a Câmara não possua os tais bairros ou edifícios com as características desejáveis, tem naturalmente de ponderar a expropriação, visto que é certo que "fazer cidade" é uma das actividades que o mercado por si só não resolve.

Bernardino Aranda

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