A armadilha afegã de Obama criar PDF versão para impressão
22-Fev-2009

amy_goodman.jpgO presidente americano pode cair na mesma armadilha que os EUA montaram aos soviéticos nos anos 70.

 


O Presidente Barack Obama deu a sua primeira conferência de imprensa no horário nobre de segunda-feira à noite. Quando questionado sobre o Afeganistão respondeu: "Este será um grande desafio". Foi questionado igualmente sobre se alteraria a política do Pentágono que proíbe filmar e fotografar os caixões dos soldados mortos no Iraque e no Afeganistão, envoltos na bandeira dos Estados Unidos. Disse que estava a revê-la. O jornalista que formulou esta pergunta relembrou que foi Joe Biden que, há vários anos, acusou o governo de Bush de eliminar as imagens para evitar a comoção pública pelas mortes de membros do serviço militar norte-americano. O agora vice-presidente Joe Biden prevê que um aumento dos seus militares no Afeganistão implicará em mais baixas norte-americanas: "Detesto dizê-lo, mas sim, creio que será assim. Haverá um aumento".

Entretanto, recentemente a Associated Press citou um relatório confidencial elaborado pelos Chefes de Estado-Maior Conjunto em que recomendam uma mudança de estratégia no Afeganistão: passar da construção da democracia a atacar os supostos bastiões dos taliban e da al-Qaeda na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão.

E, claramente, a campanha começou. Dias depois de ter assumido a presidência, as primeiras acções militares (conhecidas) de Obama foram dois ataques com mísseis numa província fronteiriça do Paquistão onde morreram 22 pessoas, entre elas mulheres e crianças.

Cherif Bassiouni passou anos entrando e saindo do Afeganistão. É professor de Direito da Universidade DePaul e ex-Relator Especial de Direitos Humanos das Nações Unidas no Afeganistão. Em 2005, foi obrigado a abandonar o seu cargo nas Nações Unidas diante da pressão do governo de Bush, dias depois de ter sido publicado um relatório em que acusava as Forças Armadas dos EUA e as empresas privadas de cometer violações dos Direitos Humanos. Questionei Bassiouni sobre a abordagem de Obama em relação ao Afeganistão. Disse-me: "Não há possibilidade de uma solução militar no Afeganistão. A solução é o desenvolvimento económico, mas não vejo que isso vá suceder... Neste momento, a população não ganha nada ao apoiar os Estados Unidos e a ONU. Tem tudo a ganhar se apoiar os taliban".

O duro relatório que Bassiouni entregou na ONU em 2005 acusava as Forças Armadas norte-americanas e as empresas privadas contratadas de "entrar em lares através do uso da força; de deter e prender cidadãos nacionais e estrangeiros sem autoridade legal nem mandado judicial, por vezes durante largos períodos de tempo; de obrigá-los a despir-se, colocar-lhes capuzes e privá-los dos seus sentidos, do sono, de alimentos, de os obrigas a estar de cócoras ou de pé durante longos períodos de tempo em posições incómodas; de abuso sexual, golpes, tortura e de usar da força até provocar a morte".

Perguntei igualmente sobre o aumento de soldados ao ex-Presidente Jimmy Carter, que respondeu: "Eu discordaria de Obama quanto ao aumento de soldados, já que isto provocaria bombardeamentos mais intensos de povoações e de centros urbanos afegãos e uma grande dependência das forças armadas. Gostaria que nos aproximássemos mais, que nos adaptássemos mais e que negociássemos mais com todas as facções do Afeganistão".

Carta deverá saber. Ajudou a criar o que o seu assessor de segurança nacional, Zbigniew Brzezinski, designou "a armadilha afegã", preparada para os soviéticos. Ela foi montada apoiando os mujahedines islâmicos no final da década de 70, para que actuassem contra os soviéticos no Afeganistão, criando, assim, o que logo evoluiu para o que são hoje os taliban. Brzezinski disse ao jornal francês Le Nouvel Observateur em 1998: "Que é mais importante para a história do mundo: o regime taliban ou a queda do Império Soviético? Alguns muçulmanos incitados à acção ou a libertação da Europa Central e o fim da Guerra-Fria?" Mais de 14.000 soldados morreram e o número de afegãos mortos superou o milhão. Osama Bin Laden iniciou-se com a ajuda da operação afegã financiada pela CIA.

Bassiouni acha que uma solução militar está condenada ao fracasso e adverte que os taliban se deram conta de que não podiam derrotar as forças norte-americanas, e por isso meteram-se debaixo de terra. Colocaram as suas kalashnikovs debaixo dos colchões e esperaram. Há um ano reapareceram. Podem fazer o mesmo. Podem regressar às montanhas, colocar as kalashnikovs debaixo do colchão, esperar cinco anos. Fazem isto desde 1800 com todos os invasores estrangeiros.

Como me disse Carter: "Oferecer uma mão de amizade ou propor acordos, não só aos líderes militares, mas também aos radicais do regime taliban que estão dispostos a negociar seria a melhor abordagem, em vez de recorrer exclusivamente à força militar".

Não aprendemos nada com o Iraque? "Quanto à guerra do Iraque, acabou-se o tempo para promessas e garantias, para esperar e ser pacientes. Perderam-se demasiadas vidas e foram gastos demasiados milhões para que confiemos no presidente para outra política que já foi testada e fracassou": Estas foram as palavras do senador Barack Obama em Janeiro de 2007. Quando os Chefes de Estado-Maior Conjunto do Exército aparentemente se preparam para mais combate e menos negociação no Afeganistão, devemos recordar a Obama as suas próprias palavras

Denis Moynihan colaborou na produção desta coluna.

Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!" um noticiário internacional diário de uma hora de duração que emite para mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em Espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award" também conhecido como o "Premio Nobel Alternativo", outorgado no Parlamento Sueco em Dezembro.

Texto original em inglês, traduzido por Mercedes Camps para castelhano, traduzido para português por Cláudia Belchior

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