A avaliação é sistémica! criar PDF versão para impressão
22-Fev-2009
Bruno MaiaNuma reunião da Administração de um hospital público central de Lisboa, uma das gestoras (MBA em gestão nos EUA) colocava a questão: "Com tanta falta de anestesistas neste hospital, porque não podem os cirurgiões anestesiar os doentes?"!

A ignorância pode ser bela - quando é curiosa, quando procura o conhecimento, quando existe para crescer e extinguir-se na sua humildade. Mas é perigosa quando é arrogante. E é perigosa quando é sistémica em detentores de cargos públicos de direcção.

O código de trabalho introduziu novas regras para toda a função pública, destruindo os actuais quadros de pessoal de nomeação definitiva e também o pessoal hospitalar está sujeito às novas regras da "extinção do posto de trabalho" ou da "inadaptabilidade". Nesta sequência o governo prepara-se para rever as carreiras médicas - introduzir novas regras na progressão na carreira.

Nesta reestruturação, o governo prepara-se para adicionar à carreira médica aquilo que parece ser sistémico na sua concepção agressiva sobre os funcionários públicos: a avaliação. Segundo as novas regras os médicos serão classificados qualitativamente em insuficientes, suficientes, bons, muito bons ou excelentes e é de acordo com esta etiqueta que poderão progredir, manter-se no mesmo escalão ou serem despedidos - 10 bons progridem, ou seja, 10 anos de trabalho para uma subida no rendimento. Para as classificações mais altas - muito bom ou excelente - as instituições disporão de uma cota limitada. Haverá sempre um número máximo (um pequeno número máximo, entenda-se) independentemente da qualidade dos serviços.

O governo acha que os seus médicos podem ter qualidade. Só não permite que haja muita qualidade, ela tem que ser limitada. Para os hospitais públicos o governo não definiu quem avalia os médicos. Será a administração? Imaginemos a tal gestora "MBA" nos EUA, que não conhece a diferença entre um anestesista e um cirurgião a avaliar os médicos do seu hospital.

Há um facto na carreira médica que ninguém pode negar. Os médicos foram sempre avaliados, desde que existe SNS. Ao longo das suas carreiras foram sempre submetidos a avaliações rigorosas pelos seus pares, num processo baseado em critérios clínicos e na aferição da sua formação contínua.

A revisão das carreiras médicas introduz formas de avaliação que pouco terão que ver com a qualidade do serviço prestado por um profissional de saúde. Qualquer semelhança com a avaliação dos professores ou é pura coincidência ou a forma de avaliação que este governo preconiza para o funcionários do Estado é má e sistémica!

Bruno Maia

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