Nove observações sobre as eleições israelitas criar PDF versão para impressão
20-Fev-2009
Michel WarschawskiÉ tempo de dizer alta e claramente: como consequência da política suicida da esquerda sionista, a direita ganhou a batalha pelas almas e valores da população israelita.

1. Menos de um mês depois do massacre de Gaza, a democracia de Israel funcionou como se nada tivesse acontecido; a direita e a esquerda discutiam a favor e contra os massacres, enquanto os cidadãos israelitas cumpriam o seu dever cívico nas urnas. Com uma mão massacram, com a outra votam: alguns de nós sentiram que isto é, de certa forma, obsceno, mas foram votar como os outros.

2. A campanha eleitoral foi, sem dúvida, a mais vazia e aborrecida das últimas quatro décadas: sem tensões, sem luta, sem debate. Os três maiores partidos defenderam exactamente o mesmo programa, tanto na política doméstica quanto económica - neoliberalismo clássico, como se a crise económica internacional não atingisse o estado judeu - como em todas as questões referentes ao mundo árabe e aos palestinianos em particular. Não admira que o interesse público nesta eleição tenha sido extremamente baixo.

3. O Likud duplicou o número de votos que obteve, mas isto também não foi uma surpresa: os seus resultados catastróficos das últimas eleições reflectiram uma conjuntura e uma situação excepcionais (a ruptura dirigida por Ariel Sharon) que acabou com a saída de Sharon. Para o partido de Netanyahu, é o regresso ao seu tamanho normal.

4. No outro lado, o colapso da esquerda sionista é uma derrota histórica: de 23 lugares (o que já era muito pouco) para 15, menos de um terço do que tinham há dez anos. Como observou Gideon Levy (Haaretz, 12/2/2009): depois de ter adoptado o discurso político da direita e de ter implementado as suas políticas, o povo israelita já não compreende por que deveria apoiar o clone da direita, e decidiu retirá-la da cena política. Fim da história e uma enorme responsabilidade para a esquerda não-sionista de construir uma alternativa credível para os ex-apoiantes do Meretz que ficaram hoje sem uma casa política.

5. O partido racista de extrema-direita Israel Beiteinu, dirigido por Avigdor Lieberman, conquistou 15 lugares (para além da extrema-direita religiosa que manteve a sua representação): Lieberman terá um papel central na política israelita nos próximos anos, algo que assusta cada democrata israelita.

6. Para além do sucesso de Lieberman, os partidos religiosos judeus - que hoje devem ser considerados de extrema-direita - não perderam votos. Por outras palavras, a ultra-direita é hoje mais forte do que no Knesset anterior.

7. Os três partidos árabes (Frente Democrática, Aliança Democrática Nacional e Lista Árabe Unida) somaram um deputado aos nove que tinham conquistado nas últimas eleições, uma confirmação da vontade geral da população palestiniana de preferir ter os seus próprios representantes do que se abster.

8. A direita tem uma clara maioria (65/120) mesmo sem Ehud Barak, que sempre estará pronto a desertar com uns poucos membros trabalhistas para uma coligação liderada por Netanyahu, e pode facilmente formar um governo de direita. Tudo indica, contudo, que devido à falta de diferenças entre os três principais partidos, haverá um governo de unidade nacional. Como tem sido o caso, na maior parte das vezes, desde 1967.

9. É tempo de dizer alta e claramente: como consequência da política suicida da esquerda sionista, a direita ganhou a batalha pelas almas e valores da população israelita. Diante de nós está um longo e lento processo de construção de uma alternativa que, se quer ser vista como tal, terá de desenvolver uma verdadeira visão alternativa. Uma esquerda judaica-árabe anti-sionista (ou pelo menos não-sionista), ou o monopólio da direita por pelo menos uma geração.

18 de Fevereiro de 2009

Michael Warschawski

Tradução de Luis Leiria

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