Chamar à pedra e pedir contas criar PDF versão para impressão
25-Fev-2009
Paula SequeirosAo fim de vários anos de restrições apertadíssimas à entrada nas Faculdades de Medicina, somos hoje confrontados com a ideia peregrina de ir buscar médicos já reformados para reingressarem nas suas funções.

O acesso às faculdades de medicina foi efectivamente protegido e defendido por todo o tipo de interesses corporativos durante demasiados anos: o resultado está à vista, agora não há médicos suficientes para tratar a população.

Este sector profissional foi-se enquistando num estatuto quase sem comparação com outros grupos sociais. Mas o torniquete à entrada no ensino superior acabou a ter outro efeito perverso: para médias muito altas de acesso havia que responder com recursos financeiros muito altos também - as famílias de mais posses eram as que tinham facilidades em contratar colégios privados que assegurassem as médias necessárias e o batalhão de explicadores de que estes alunos normalmente estavam rodeados.

A formação cívica e pessoal desses alunos já era outra coisa - encerrados no horizonte estreito das notas altas, estes jovens arredaram-se de formas de socialização que os teriam feito amadurecer de forma bem diferente. E é sabido como óptimos profissionais, e às vezes alunos que acabaram os seus cursos com notas muito altas, não eram alunos com notas de rebentar a escala no momento de entrar na universidade.

Como era sabida já a falta destes profissionais de saúde nas zonas do interior - as condições de trabalho mais difíceis com que aí se teriam de debater, os estilos de vida a alterar, funcionaram como dissuasores. O que nunca aconteceria se a oferta de médicos fosse suficiente, tal como os professores, deslocar-se-iam para os locais onde os seus serviços fossem requeridos.

Mas agora não é só o interior que sentirá esta falta. A ponto de o ministério da saúde ter afirmado já que está a considerar a hipótese de voltar a chamar médicos que já se aposentaram para preencher essas falhas.

A questão que nos preocupa não é saber se este ou aquele médico quis ou não ir para o interior, é saber que a actual falta de médicos não é um «daqueles azares». A questão é que esta falta era não só previsível como só foi possível porque alguém programou esse torniquete no acesso de novos alunos para proteger os interesses instalados dos que já tinham atingido essa situação profissional.

E isto é um atentado à nossa saúde.

É tempo por isso de chamar à pedra os responsáveis e de lhes pedir contas pela situação que criaram.

Paula Sequeiros

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