Os Feminismos e as Esquerdas (II) criar PDF versão para impressão
26-Fev-2009

Natasha NunesEm A Dominação Masculina Bourdieu enuncia que a ordem social [androcêntrica] funciona como uma imensa máquina simbólica tendendo a ratificar a dominação masculina em que assenta: há a divisão sexual do trabalho, há a estrutura do espaço, há a estrutura do tempo. Se a lógica patriarcal é ainda dominante, então as opressões que este exerce sobre as mulheres são ainda actuais. Daí a necessidade da criação constante de discurso feminista, que denuncie as discriminações, sua prática e sua génese, e que acuse os mecanismos societais, compulsivos e coercivos, através dos quais estas actuam.

Legitimando-se, os feminismos não deixam de precisar de conquistar a hegemonia social. O combate pela igualdade entre os géneros necessita ser preconizado por um movimento social que seja simultaneamente um conflito social e um projecto cultural, como sugere Touraine. Transmutar as mentalidades, alterando o quotidiano, vencendo a violência simbólica do sexismo e trilhando o caminho para o alcance de disposições legais que ratifiquem e incentivem a equidade.

Se, conforme indica Butler, os feminismos serão tanto mais eficazes quanto mais híbrido e miscigenado for o carácter das suas reivindicações, então, um sujeito feminista de novo tipo, será o resultado da congregação de heterogéneas energias contestatárias reunidas numa praxis política que preconize uma metamorfose plena da sociedade. Questões como a da soberania sobre os corpos, da livre vivência das sexualidades, da obtenção de novos direitos sociais, da exigência do usufruto dos direitos laborais já existentes mas ainda impraticados, entre outras, deverão ser todas reunidas sobre a égide dos feminismos contemporâneos.

Organismos como o antigo Ministério para a Igualdade ou como a actual Comissão para a Igualdade entre os Géneros não carecem de utilidade mas são claramente insuficientes. Para que os feminismos vinguem de facto, não basta a existência de um gender mainstreaming burocratizado e institucionalizado. Importa lembrar que, se os feminismos nasceram do pensamento à esquerda, foi nas ruas que conseguiram as suas principais conquistas e será com a massa crítica e o exercício crítico dos movimentos sociais que continuará a reinventar-se e a gizar renovadas estratégias emancipatórias.

Natasha Nunes

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