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02-Mar-2009
João RomãoSócrates tentou que o Congresso do PS o afirmasse como um líder da esquerda e falhou redondamente. A sua moção, em defesa do emprego, do estado social ou do direito ao casamento entre homossexuais, contrariou com evidência a sua prática recente como primeiro-ministro e não mobilizou os socialistas mais descontentes: nem João Cravinho nem Manuel Alegre viriam a aceitar os convites de Sócrates para integrar a Comissão Política rosa.

A direcção do PS não vê nisto qualquer motivo para auto-crítica, defendida como está por uma quase unânime vitória no Congresso de Espinho: o que o ministro Pedro Silva Pereira encontrou neste episódio foi apenas um exemplo "de abertura e tolerância" do secretário-geral do PS ao convidar Cravinho e Alegre.

O Congresso tinha começado com António Costa a evocar o relacionamento do Bloco de Esquerda com José Sá Fernandes para classificar o Bloco como um partido "parasita", que explora eleitoralmente os problemas sociais em vez de ajudar a resolver o problema da "governabilidade à esquerda" quando o PS não tem maioria absoluta.

Quando o Bloco respondeu a esta observação, lembrando com propriedade alguns exemplos de evidente parasitismo promovido pelo governo PS, como os casos de Manuel Fino com a Cimpor ou de Jorge Coelho com a Mota-Engil e o Porto de Lisboa, Costa também não viu qualquer motivo para auto-crítica: o que encontrou foi apenas o "ódio" de Louçã ao PS.

O presidente da Câmara de Lisboa podia ter-se lembrado do momento em que propôs ao Bloco, PCP e Helena Roseta um amplo acordo para governar a cidade, após as últimas eleições intercalares autárquicas. Nessa altura, só o Bloco, esse "parasita", partilhou a gestão da Câmara de Lisboa com o PS. E nas próximas eleições, com o convite de renovado de António Costa, nenhuma esquerda quer estar ao lado do PS.

Nos últimos anos, o PS tem protagonizado em Portugal um feroz ataque aos serviços públicos, a desregulamentação do trabalho ou a privatização de serviços que apenas gera abusivos monopólios privados.

Agora quer parecer de esquerda, que talvez seja mais eficaz para responder à crise económica e social. Mas em vez de reflectir e auto-criticar o seu próprio percurso, prefere dar lições a quem não quer estar ao seu lado. É um problema que se resolve facilmente: basta que não tenham maioria absoluta.

João Romão

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