O Estranho caso da “evaporação de tráfego” criar PDF versão para impressão
06-Mar-2009

Bernardino ArandaCom as obras no Terreiro do Paço e as consequentes restrições ao tráfego, caiu um dos maiores mitos urbanos de Lisboa: O mito de que era impossível cortar o trânsito de atravessamento da Baixa, sem criar o absoluto caos no trânsito de toda a cidade.

A génese deste mito vem do facto de se estudar o tráfego como se fosse uma ciência exacta ou um problema de hidráulica. O raciocínio é simples: Se cortamos o trânsito na Baixa, esse tráfego tem de escoar para algum lado, tal como aconteceria se cortássemos o curso de uma ribeira.

A verdade não é essa. O tráfego é mais como uma ciência humana. Depende de milhares de micro-decisões pessoais que vão para além da procura de percursos alternativos. Vou passar a ir noutro horário para o emprego? Vou passar a andar de transportes públicos? Vou andar a pé ou de bicicleta? Vou desistir de ir a determinado sítio ou aproveitar e fazer tudo de uma vez só, limitando as minhas viagens? Ou até: Tenho de pensar em mudar de casa...

Se pensarmos no tráfego como a circulação de um fluido, faz então sentido falar no conceito de "evaporação de tráfego". Foi o que se passou na Baixa.

Cortado o trânsito de atravessamento, houve uma diminuição muito significativa de carros a circular nesta área onde antes passavam mais de 65 mil veículos por dia.

Houve sem dúvida outras vias que ficaram com maiores perturbações, mas nada minimamente comparável à alegada situação caótica que seria criada, segundo aqueles que sempre foram contra a restrição do trânsito na Baixa.

Para onde foi então tanto carro? Pura e simplesmente desapareceu. Ficou parado, estacionado, sem poluir, sem ocupar espaço no centro da cidade

As pessoas passaram a andar mais de transportes públicos. O metropolitano avançou com números impressionantes de subidas de utilização entre os 7,5% e os 10%. A Carris informou que registou um aumento global de passageiros na ordem dos 5% e, apesar de não haver números sobre os comboios, há também a sensibilidade que este meio de transporte está a ser mais utilizado.

Mas o efeito de evaporação de tráfego não se limitou apenas à transferência para os transportes públicos. Há com certeza mais gente a partilhar transportes individuais, a planear melhor as suas viagens, a andar a pé e de bicicleta.  

Há males que vêm por bem. Foi o que aconteceu neste caso com as obras do Terreiro do Paço. O clima é de espanto e mesmo de alguma euforia entre os defendem há muito a implementação de medidas restritivas à circulação do automóvel privado.

A experiência está a demonstrar o acerto da nossa orientação política que foi, desde sempre, a da redução da entrada de veículos em Lisboa; a da redução da poluição atmosférica e sonora no centro da cidade; a da prioridade ao peão.

Bernardino Aranda

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