Utópicos e cínicos criar PDF versão para impressão
07-Mar-2009
Bruno Maia

E se o mercado funciona - e é esse o dever do governo, assegurar que o mercado funciona - então os preços da gasolina terão que acompanhar os preços do petróleo. Esta frase era proferida por Sócrates, na Assembleia da República, a 23 de Setembro de 2008.

Nos últimos 30 anos, no nosso país, a forma como as pessoas olham para a política é com desconfiança e um afastamento crescente. Os políticos da rotatividade constante ensinaram-nos a todos e a todas o cinismo da gestão do capitalismo: não vale a pena pensar em alternativas, isso é de gente utópica! As coisas têm de ficar como estão, porque é assim que elas são!

Estes professores do cinismo, foram, ao mesmo tempo, os mesmos que nestes 30 anos geriram o país desastrosamente. E foram os mesmos que se foram adaptando ao neoliberalismo e subordinando o poder do estado às regras e às não-regras do mercado. O mercado chegou mesmo a ser ideologizado como libertador e a mais eficaz forma de democracia existente. O mercado traria a concorrência e a baixa de preços com consequente aumento do consumo A inovação constante traria mais investimento, logo mais lucros e oportunidades para todos e todas. O mercado é, na ideologia neoliberal, senhor e rei! E é neste ponto que os cínicos se tornam, também eles, utópicos!

Vejamos o exemplo da Galp: lucros a dispararem 200% numa altura em que a UE entra em recessão; mais 125 milhões de euros em 3 meses, mais 14% de lucro do que no ano anterior. Sabemos o porquê - a Galp acompanhou rapidamente a subida do preço do barril de petróleo a nível internacional no Verão de 2008 e já no final do trimestre, quando o petróleo atingia mínimos históricos, o preço da gasolina praticado pela Galp mantinha-se ao nível dos preços de Verão - tudo pelo lucro, nada pelos consumidores!

Manuel Pinho e Sócrates, cínicos por convicção, incomodaram-se com isto, proferiram declarações e nada fizeram! E quando Sócrates esperava que o mercado funcionasse, revelava toda a sua dimensão utópica, pois o problema é que o mercado não funciona e nunca funcionou, tal como os seus cínicos o teorizaram. O capitalismo é a acumulação de lucro a todo o custo. Para acumular mais lucro o capitalismo criou monopólios - grandes multinacionais que foram adquirindo pequenos empresários e foram dominando o mercado até não terem mais concorrência para praticarem os preços que bem entendessem - assim o é Américo Amorim na cortiça, assim é a Galp no contexto da Península Ibérica. Esta é a história do capitalismo e do mercado: concentração de lucros, monopolização do mercado! A monopolização do mercado encarregou-se de tudo o resto: concentração dos meios de comunicação social, deslocalização de empresas, falências fraudulentas, off-shores, entre outros.

No meio desta barafunda que é o mercado, os seus cínicos (ou utópicos, já não sei bem), que são os nossos governantes, tudo fazem para salvar o mercado - privatizam sectores públicos que dão lucro como foi o caso da Galp, atribuem prémios a empresários que perdem na especulação como Manuel Fino, criam códigos de trabalho que tornam livres os despedimentos e precarização no trabalho a todo o custo, atribuem prémios e subsídios estaduais a empresas que, tendo lucro, despedem trabalhadores. E estes cínicos/utópicos do capitalismo só esperam uma coisa: que o mercado funcione! Pois aos cínicos/utópicos do capitalismo só há uma coisa a dizer: o mercado já funciona e é assim que funciona!

Nesta encruzilhada entre o cinismo e a utopia, só existe algo mais importante do que a ideologia vencida de José Sócrates - a vida das pessoas. É perante as pessoas que o Governo tem que responder a todas as questões fundamentais sobre a crise que atravessamos:

- O governo vai continuar a subsidiar empresas que despedem trabalhadores?

- O governo vai permitir que empresas que dão lucro, despeçam trabalhadores?

- O governo vai manter o seu código de trabalho, num país onde mais de 900000 pessoas trabalham a recibos verdes?

- O governo vai estimular o consumo para ultrapassar a crise, ou vai-se limitar a subsidiar as catástrofes de quem perdeu na alta finança?

Coisas simples, resolúveis por medidas simples, longe de utopias e cinismos e pelas quais o governo tem de se pronunciar. Será que Sócrates vai agir ou esperar que o mercado funcione?

Bruno Maia, decididamente utópico

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