Consumo Tóxico criar PDF versão para impressão
06-Mar-2009
Amy GoodmanO seu batom tem chumbo? O biberão do seu bebé é tóxico? A American Chemistry Council - uma associação que representa as companhias químicas dos Estados Unidos - assegura-nos que fazem produtos que nos ajudam a manter-nos sãos e saudáveis. Mas a verdade é que os consumidores norte-americanos estão expostos a uma vasta panóplia de substâncias químicas e aditivos nocivos presentes em brinquedos, cosméticos, garrafas de água em plástico e um rol de outros produtos. As indústrias químicas e manufactureiras dos Estados Unidos têm resistido energicamente à regulação, enquanto a Europa aplica proibições cada vez mais estritas contra as mais prejudiciais toxinas. A União Europeia sustenta que regular é bom para os negócios, já que inspira a confiança dos consumidores e pressupõe uma poupança de dinheiro a longo prazo.

A maioria das pessoas surpreender-se-ia se soubesse que a indústria de cosméticos norte-americana está escassamente regulada. O jornalista investigador Mark Schapiro publicou um livro que trata do tema das substâncias químicas tóxicas em produtos de uso diário, intitulado: "Exposed: The Toxic Chemistry of Everyday Products and What's at Stake for American Power" (Expostos: a toxicidade dos produtos quotidianos e como se põe em jogo o poderio estado-unidense). Face à ausência de controlo, pesquisadores e jornalistas, como Schapiro, e organizações de base têm decidido actuar para preencher o vazio da regulação.

Schapiro disse-me: "Nem o verniz para unhas que usas, nem a sombra para os olhos, nem o champô, que são essencialmente produtos de cuidado pessoal, nada disso está regulado pela FDA, a Administração de Alimentos e Fármacos. A FDA nem sequer tem o poder para regulá-los. Ao longo dos últimos 50 anos houve numerosas tentativas no Senado para estender a competência da FDA, e todas essas tentativas têm sido travadas reiteradamente pela indústria de cosméticos." Schapiro acrescentou que é muito difícil obter informações sobre as toxinas. Disse que " de facto, só sei que tipo de produtos contêm os cosméticos, não porque a FDA me tenha informado, mas porque a União Europeia tomou medidas para proibir essas substâncias e divulgou uma lista".

A Campanha por Cosméticos Seguros (CSC, por suas siglas em inglês), uma coligação de organizações sem fins lucrativos, que promove a proibição do uso de produtos tóxicos nos cosméticos, divulga uma extensa lista de substâncias químicas tóxicas, entre as quais se incluem o chumbo e os ftalatos, que são utilizadas comummente na elaboração de cosméticos e artigos de cuidado pessoal. Os ftalatos estão ligados aos defeitos congénitos, incluindo o desenvolvimento genital anormal em rapazes, a diminuição da concentração de espermatozóides e a infertilidade. O chumbo está presente nos batons e em centenas de outros produtos. A CSC informa que "o chumbo... é uma neurotoxina comprovada, vinculada a problemas de aprendizagem, linguagem e comportamento... abortos espontâneos, fertilidade reduzida, tanto nos homens, como nas mulheres, mudanças hormonais, irregularidades no ciclo menstrual e atrasos no início da puberdade das meninas". Esta é a substância que mulheres e raparigas se aplicam e reaplicam todos os dias sobre a boca e que vão ingerindo ao passar a língua pelos lábios.

A União Europeia, composta por 27 nações que representam quase 500 milhões de pessoas, está a impor-se em matéria de toxinas, tomando sérias medidas económicas (de força). Stavros Dimas, membro da Comissão Europeia para o Meio Ambiente, explicou os benefícios da regulação a longo prazo: "Reduzir-se-ão as despesas médicas para o tratamento de doenças causadas por substâncias químicas. Haverá medicamentos que já não serão necessários. Não perderemos horas de trabalho e aumentará a produtividade. De maneira que os benefícios gerais compensarão de longe os custos da indústria".

Segundo Schapiro: "Os estados europeus têm uma comparticipação muito maior na saúde de seus concidadãos do que os EUA. Querem diminuir as despesas e pretendem poupar mais de 50 milhares de milhões de dólares nas próximas décadas, isto como resultado do melhoramento das condições de saúde e ambientais decorrentes de uma estrita regulação sobre os químicos.

Em 2007, depois da retirada dos brinquedos chineses do mercado dos EUA (devido à presença de chumbo), o Congresso aprovou a Lei de Melhoria na Segurança dos Produtos de Consumo (CPSIA, siglas em inglês), que foi promulgada pelo Presidente George W. Bush. A 10 de Fevereiro entrou em vigor uma disposição essencial que proíbe que os produtos destinados a crianças até 12 anos contenham chumbo ou ftalatos. Mas, se comprou um brinquedo de plástico antes dessa data, tenha cuidado. O Verão passado, ao aprovar-se a lei, alguns comércios encheram as suas estantes de brinquedos contaminados e venderam-nos a preços de liquidação com o fim de desfazer-se dos seus stocks.
Face à crescente procura de produtos biológicos, cada vez surgem mais alternativas de segurança para brinquedos, cosméticos, champôs e outros artigos. A diferença entre as toxinas serem limitadas pelas forças do mercado e serem limitadas por lei é que, segundo Schapiro, "com uma lei, os efeitos são muito mais equitativos, porque todos gozam da mesma protecção, mesmo que não tenham os meios ou os conhecimentos para optar pelos produtos alternativos."

É aqui que a UE entra em jogo, com a implementação do seu sistema de regulação expansivo e de vanguarda a nível mundial (denominado "REACH", uma sigla em inglês que se traduz como "ALCANCE" e que significa Registo, Avaliação, Autorização e Restrição de substâncias Químicas). Schapiro escreve que "A revolução levada adiante pela Europa em termos de regulação da indústria química obriga a que se estudem os possíveis efeitos tóxicos sobre os humanos de milhares de substâncias químicas e marca o final da capacidade da indústria dos EUA de ocultar ao público informação fundamental".

Uma forte regulação sobre o uso de toxinas não só é vital para salvar vidas, mas também é bom para os negócios. Os Estados Unidos têm agora uma oportunidade de se aproximarem dos seus sócios europeus e de introduzir mudanças que não sejam só uma maquilhagem.
24/22009

Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.
Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!", um noticiário internacional diário de uma hora de duração transmitido por mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e 200 emissoras em espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award", também conhecido como o "Prémio Nobel Alternativo", outorgado pelo Parlamento Sueco em Dezembro.

Tradução de Ana da Palma

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