O grande fracasso dos bancos centrais independentes criar PDF versão para impressão
17-Mar-2009
Os bancos centrais independentes só foram úteis para que os grandes financeiros e os banqueiros sem escrúpulos tenham tirado proveito nestes últimos anosA crise que estamos a viver pôs em evidência muitos fracassos que já ninguém pode dissimular: o da ideia de que os mercados se podem auto-regular com sucesso, o dos princípios que inspiraram a gestão financeira e, sobretudo, o daqueles que fizeram crer a todo mundo que aquilo que convém aos financeiros e especuladores é bom para todos, para citar apenas três deles.
Artigo de Juan Torres Lopez e Alberto Garzon Espinosa (5 de Março de 2009), publicado em Informação Alternativa,  

Mas há um fracasso que a nós nos parece especialmente importante e sobre o qual se está a tentar passar em bicos de pés: o dos bancos centrais independentes.

Nos últimos decénios tiveram no papel uma capacidade imensa para decidir, vigiar, autorizar ou pôr em andamento a política monetária. Praticamente não houve um aspecto das finanças nacionais e, por extensão, internacionais sobre o qual não tenham podido actuar mais ou menos directamente. E tudo isso sem interferências, com plena independência, de modo que agora não podem assacar senão às suas próprias limitações os desastres que contribuíram para provocar.

Com o tempo, poder-se-á analisar com mais detalhe o papel que tiveram, mas de momento é fácil avaliar que, ao impulsionar as mudanças tão negativas que se têm vindo a dar nos últimos anos e ao deixar agir os grandes poderes financeiros, actuaram como catalisadores da crise.

Em primeiro lugar, foram um dos principais instrumentos para aplicar as políticas deflacionistas dos últimos decénios. Políticas orientadas a criar escassez e a provocar desemprego para vencer as resistências trabalhistas e que provocaram uma diminuição da capacidade potencial de crescimento das economias. Graças a elas, foi possível recuperar a taxa de lucro, mas, ao debilitar os salários, e com eles a procura, conseguiram-no à custa de uma perda global de rendimentos que foi um dos factores que impulsionou o contínuo desvio de capitais para o âmbito especulativo, onde se podia alcançar lucros mais elevados e rápidos. Um fenómeno que está na origem dos problemas que agora paralisam a economia mundial.

Em segundo lugar, aplicaram políticas monetárias ao serviço dos interesses dos grandes financeiros e para apoiar um modelo produtivo baseado na geração de bolhas que, como se pôde comprovar em inúmeras ocasiões e agora de forma particularmente clara, é materialmente insustentável.

Em terceiro lugar, os bancos centrais deixaram actuar os capitais especulativos, favoreceram a criação e o funcionamento dos mecanismos legais e materiais necessários para que as suas actividades se tivessem estendido por todo o planeta e, no sentido de salvar o princípio de liberdade de mercado, não puseram praticamente limite algum à barbárie especulativa dos últimos decénios.

A Reserva Federal olhou para o outro lado durante anos, quando se gestava a bola de neve das hipotecas-lixo, quando o alavancamento e a engenharia financeira geravam um risco sistémico a todos os títulos insuportável a médio prazo e quando os bancos e as grandes empresas desviavam sem pudor as suas contas e lucros para os paraísos fiscais. Não os preocupou a opacidade, nem a criação artificial de dinheiro fácil, nem a falta efectiva de supervisão...

Como agora se pôde saber, fizeram ouvidos surdos aos avisos de fraudes, ao risco ingente acumulado por dúzias de entidades financeiras em operações que os bancos centrais conheciam sem lugar a nenhuma dúvida, e manipularam as taxas de juro para ir favorecendo esse tipo de ganhos...

Em quarto lugar, os bancos centrais contemplaram em silêncio, quando não foram dando o seu consentimento explícito, a desnaturalização progressiva do negócio bancário, que acabou por deixar exausta a economia real. Em lugar de obrigar a que o financiamento se dirigisse preferencialmente para a actividade produtiva, deixaram agir os bancos e nada fizeram para desincentivar a especulação e a transferência de recursos multimilionários da poupança privada para a especulação financeira.

E, sempre, os bancos centrais actuaram como os mais privilegiados difusores da ideologia que justificava tudo isso, louvando sempre o mercado, a quem reconheciam propriedades de auto-ajuste que nunca se puderam comprovar na realidade, antes pelo contrário, e promovendo sempre as reformas mais favoráveis ao grande capital para debilitar o poder negociador dos trabalhadores.

Apesar de gozarem de mais meios que nenhuma outra instituição económica, apesar de se auto-apresentarem como o summun da ciência económica, a verdade é que nada anteciparam, que quando estalou a crise não acertaram em adoptar medidas eficazes, que se viram superados pelos factos e que, finalmente, tiveram que deixar nas mãos dos governos a capacidade para enfrentar os problemas que, com a sua enorme inércia, tinham contribuído tão decisivamente para gerar.

Nem sequer se pode dizer que tenham sido capazes de conseguir sucessos na luta pela estabilidade dos preços. Até há pouco, continuavam a ameaçar com a inflação. Agora, fazem-nos temer a todos pela deflação, o que constitui uma indiscutível mostra de que a estabilidade perseguida está longe de se ter alcançado. E, quando se conseguiu, foi, como assinalámos no princípio, à custa de reduzir muito perigosamente a capacidade de crescimento potencial das economias.

Para que serviu então dar independência a estas instituições senão para que as suas competências ficassem fora do alcance das instituições representativas, para que decisões que antes podiam ser tomadas em função de preferências representativas agora estejam em mãos de políticos que não o são, no melhor dos casos, ou dos poderes financeiros privados, no pior?

Os bancos centrais independentes só foram úteis para que os grandes financeiros e os banqueiros sem escrúpulos tenham tirado proveito nestes últimos anos. O desenvolvimento da crise mostra a sua impotência e a sua efectiva incapacidade para dar respostas, primeiro de previsão e depois de solução. Mas enquanto existirem como tais, subtraindo aos governos representativos a possibilidade de adoptar políticas que respondam às preferências cidadãs, não só continuarão a ser um limite material para que se viva em democracia, mas impedirão que as respostas às crises sejam eficazes.

É preciso rever o seu estatuto, democratizar a política monetária e pô-la nas mãos de organismos que, como qualquer outro âmbito do estado, estejam sempre ao serviço dos interesses sociais e não dos oligárquicos que uma vez mais provocaram o desastre financeiro e económico

Fonte: Altereconomía , tradução para português de Informação Alternativa

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