Liberdade para ser racista? criar PDF versão para impressão
19-Mar-2009

Sou aluno finalista do curso de antropologia nos ISCTE, fico frequentemente chocado com comentários de alguns colegas que também são finalistas e que certamente serão em breve antropólogos licenciados por esta instituição.

Hoje a propósito de uma discussão sobre "os ciganos" ouvi das maiores barbaridades proferidas em aula por alguns colegas. Desde que: "os ciganos destroem as casas que lhes dão...", ou "vemos os negros nos barcos de manhã todos os dias para ir trabalhar, mas não vemos os ciganos..." ou ainda "até há alguns ciganos evoluídos que tem trabalho, casa e televisão...".

Aquele docente em particular que estava responsável pela cadeira, tentava conter o chorrilho de asneiras que eram proferidas em catadupa, infelizmente não foi eficaz pois o problema não depende dele. Este caso não é único, não é a primeira vez que acontece e não será exclusivo do ISCTE, porém assume proporções dramáticas quando se tratam de antropólogos que estão a dois meses de estarem licenciados.

Em antropologia é suposto aprender entre outras coisas uma série de conceitos que fazem parte do trabalho, pensamento e história da antropologia. Refiro-me a tolerância, diversidade cultural, respeito pelo "outro", direitos humanos, pensamento critico, mediação cultural, etc.

O problema é que estas pessoas que estarão em breve licenciadas pelo nosso sistema de ensino para tratar destas questões, são as mesmas que reproduzem o senso comum do preconceito e da intolerância. Mesmo assim o problema aqui não só e em particular dos colegas que tiveram inúmeras cadeiras onde trataram estas questões e que insistem em não aprender.

O problema de fundo é outro e é de duas ordens:

1 - A comunicação social reproduz diariamente, conceitos xenófobos e racistas. Conceitos que continuam a fazer escola e que são assimilados e reproduzidos por grande parte da nossa sociedade, quer seja por ignorância, quer seja por opção ideológica.

2 - O sistema de ensino capitalista baseia-se num único aspecto, o dinheiro. O critério é o seguinte se conseguires pagar as propinas vendemos-te o curso, o mestrado, o doutoramento e por ai fora. Não tens que aprender, não tens que mudar, não tens que questionar e questionar-te, não tens que participar, só tens pagar e não estrebuchar.

Como referi anteriormente o problema não é dos meus colegas em particular, mas da sociedade como um todo. Há opções que temos que fazer se pretendemos "evoluir" ou se pretendemos continuar a aceitar este tipo de discriminação e preconceitos.

Não pode haver tolerância com a intolerância para com os "outros", intolerância essa que se baseia "apenas" nas diferenças fenotipicas ou culturais. Ninguém diz os brancos isto ou os brancos aquilo, ninguém se atreve a fazer generalizações sobre os brancos, mas pelos vistos o que não é "branco" já pode ser generalizado. A triste história colonial e católica do nosso país infelizmente ainda está viva no coração da nossa sociedade. Por esta e muitas outras razões é urgente voltar a colocar estas questões, o debate infelizmente está mais actual que nunca. No caso particular do ISCTE e do curso de antropologia este debate não pode ficar por fazer, é urgente debater sistematicamente estas "questões" até elas deixarem de existir. O racismo não pode continuar a passar.

Pedro Pombeiro

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