Por trás do G20 está sempre o G8! criar PDF versão para impressão
25-Mar-2009
Gustave Massiah

O G20 vai reunir a 2 de Abril em Londres para discutir o nosso futuro e o do mundo. Poderá o G20 salvar o planeta dos efeitos da crise? Isto não está verdadeiramente na sua ordem de trabalhos. Não se espera que ele se ocupe, por exemplo, com a redistribuição da riqueza, com as taxas sobre as transacções financeiras e com as ecotaxas sobre o CO2, com as normas sociais. Vai sobretudo discutir a crise financeira, um pouco da crise económica e provavelmente da crise monetária. Vai endossar as questões comerciais à OMC e as questões ambientais à reunião de Copenhaga.

Artigo de Gustave Massiah, publicado em Alterinter.

Na preparação de Londres, os países do G20 estão divididos em três grupos. Uns, anglo-saxões, atrás da Grã-Bretanha, pensam que não é preciso discutir senão programas de relançamento e que a refundação do sistema internacional não é prioritária. Para esses é urgente esperar e beliscar os grandes interesses apenas no mínimo indispensável. O neoliberalismo está suspenso, mas continua a ser a referência. A posição dos Estados Unidos vai igualmente neste sentido, ainda que a nova administração, que ainda não está completa, possa reservar surpresas. Os conselheiros de Obama fazem constar que este G20 chega muito cedo.

Os outros, como os europeus do continente, defendem, pelo menos em palavras, a regulação e a reforma do sistema internacional. Propõem uma lista negra reforçada dos paraísos fiscais e judiciários. Mas a França que quer estar na vanguarda, pelo menos pelas suas declarações, evitou condicionar a ajuda aos bancos ao fim destas práticas, contrariamente à administração norte-americana que atacou o sigilo bancário suíço. A recapitalização do FMI, que custará algumas centenas de milhares de milhões, não se traduzirá por uma reforma consistente desta instituição. Mesmo a dupla maioria, completando os votos em capital com o peso do número de países, caiu no esquecimento.

Os terceiros, os países emergentes, novos convidados para a mesa, indicam, justamente, que não são responsáveis pela crise e que os países do G8 apenas têm de assumir as medidas necessárias. Estão preocupados que essas medidas afectem as suas economias.

O G20 é certamente mais apresentável que o G8 pois os 20 países representam dois terços da população mundial. No entanto, enquanto directório auto-proclamado continua a ser ilegítimo. E a sua evolução desde a sua criação em 1999 não é convincente. Lembremo-nos que em 1977, o precursor do G8 tinha criado a crise da dívida apelando aos países petrolíferos a que reciclassem os petrodólares e aos bancos a que lhes emprestassem sem muitas reservas. Tinha assim quebrado a frente dos países do Sul construída em Bandung, lançando os países petrolíferos contra os países mais pobres. Hoje tentam o mesmo golpe com os países emergentes, e o seguidismo destes em relação às propostas dos ocidentais leva a temer o pior. O G20 é de momento uma camuflagem para o G8, que também continua a ser ilegítimo. De facto, é sempre o G8 que comanda. Ou antes o G7, já que a Rússia continua a não fazer parte da família plenamente. Quanto aos outros, prontos para avançar com os seus valores comuns, acham por bem apresentar-se como o clube das democracias industriais; que é a etiqueta que os mais ricos colam sempre na sua pele. É a sua posição dominante, apoiada na supremacia militar que os une na pretensão de decidirem pelo mundo. O que eles têm em comum é o seu passado não verdadeiramente ultrapassado de potências coloniais. Os países pobres e os pobres dos países mais ricos não fazem parte das suas preocupações.

Restam portanto as Nações Unidas! Certamente contestáveis, mas apesar de todos os seus defeitos, as Nações Unidas, mesmo sem uma indispensável reforma radical, continuam a ser superiores a todos os directórios.



Gustave Massiah é economista, fundador de Attac, presidente do CRID (Centre de recherche e d' information pour le developpement - centro de investigação e informação para o desenvolvimento) e membro de Alterinter.

 
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