A esquerda Bolkestein criar PDF versão para impressão
16-Nov-2006

nuno_ramosalmeida.jpgDepois de ouvir a verve sedutora, cheia de pulsão revolucionária, de Jaime Gama, José Lello e Jorge Coelho, no congresso do PS, consegui antever as maravilhas da esquerda moderna. Ficou-me apenas uma dúvida: porque razão a palavra mais repetida, no encontro do partido do governo, foi "esquerda"? Acham mesmo que a palavra tem poderes mágicos e que o seu uso como mantra pode iludir a realidade?

Na fantástica série do Yes prime minister, um assessor avisado explicava ao primeiro-ministro que se ele tinha uma medida revolucionária, convinha anunciá-la na televisão usando um cenário clássico e vestir-se de fato e gravata. No caso de não fazer nada, devia usar um "pulôver" desportivo e um quadro vanguardista como fundo. Estamos pois no domínio da arte moderna. Viram à direita, enquanto berram "esquerda", a plenos pulmões. Para completar a ilusão, nada melhor que umas imagens do 25 de Abril, uma musiquinha da altura e as palavras da Maria de Medeiros. Estamos em pleno reinado da esquerda soft, vendida como som ambiental de hotéis e elevadores. Já há móveis do IKEA com esse conceito?

Neste congresso assiste-se a uma ‘blairização' do PS. Nos próximos dez anos, os socialistas vão executar o programa da direita, esvaziar o PSD dos seus apoios políticos e empresariais e perpetuar-se, por ausência de alternativa política e eleitoral. A única possibilidade que impede este passeio neoliberal é a hipótese de reconstrução de um pólo alternativo de esquerda que possa fazer convergir toda a esquerda descontente das políticas neoliberais. Daí a importância que o governo dá às reformas do sistema eleitoral, o PS vai apoiar qualquer iniciativa para reduzir administrativamente os partidos à sua esquerda, para impedir a existência de uma alternativa política. O sectarismo de alguma esquerda fará outro tanto, e estaremos, no final dos governos Sócrates, se depender dele, com uma sociedade mais pobre e desigual. Mas muito mais moderna (termo a que se dá a sociedades com normas laborais à chinesa e que só não convergem para o salário mínimo do Ruanda, porque no Ruanda não há salário mínimo).

Mas tenham esperança os empresários que ambicionam ter uma massa de trabalhadores com salários ruandeses, no país mais ocidental da Europa: o governo PS está com eles e até, ao contrário de muitos socialistas europeus, aprovou a directiva Bolkestein!

 
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