A cooperação silenciosa e a eterna conspiração criar PDF versão para impressão
18-Nov-2006
luis_branco.jpgDa primeira entrevista televisiva do presidente da República não se aguardavam grandes novidades e o entrevistado foi logo avisando que tinha deixado as notas e apontamentos em Belém. Nervoso com a marcação cerrada na RTP por mais um número paranóico de Santana Lopes (agora também em livro), Cavaco garantiu que o governo está no caminho certo e que não lhe quer passar rasteiras. A oportunidade da entrevista, após o congresso do PS e nas vésperas da aprovação do Orçamento de Estado com os votos contrários do PSD, diz muito sobre o alinhamento evidente entre Cavaco e Sócrates nas grandes escolhas políticas: cortes orçamentais nos serviços públicos e baterias apontadas à administração pública e educação, onde se promovem medidas ostensivamente contra os funcionários e professores que deveriam desenvolver as reformas necessárias, mas que são agora tratados como "privilegiados".

Salvo qualquer imponderável, esta "cooperação silenciosa", nas palavras de Cavaco, vai durar todo o mandato, para desgraça de Marques Mendes e alívio de Sócrates, que continua a ganhar em apoio institucional o que começa a perder no apoio do seu eleitorado de 2005, defraudado pelas promessas traídas.

Por oposição ao mar de rosas cavaquistas em Carnaxide, no canal público de tv Santana Lopes mostrou que continua igual a si próprio. O mesmo ar sofrido, perseguido e martirizado de sempre, com que distribui as culpas pelo abismo em que colocou o seu governo, enredado numa sucessão de episódios que lhe parecem ainda hoje absolutamente naturais. Embora o seu livro se arraste por 423 páginas, para o primeiro-ministro empossado e demitido por Sampaio, aquilo que realmente aconteceu conta-se em poucas linhas: uma conspiração entre o anterior e o actual presidente da República para evitar o regresso de Soares a Belém. Assim, Sampaio deixava de ser um "parêntesis da história" presidencial, entregando o posto a Cavaco, que por sua vez beneficiaria por ter um governo PS no momento da eleição presidencial.

Se a noite televisiva não trouxe surpresas, trouxe pelo menos uma confirmação: a entrevista de Cavaco veio garantir a Sócrates que tem caminho livre para continuar a governar à direita.

 
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