NATO: 60 anos de quê? criar PDF versão para impressão
03-Abr-2009
Os 60 anos da NATO são essencialmente 60 anos de guerrasMas que vão celebrar os altos comandos da NATO e os chefe de governo dos países que a integram? "Sessenta anos de paz sem precedentes", anunciam! Bom, dentro da Europa há que exceptuar a trágica guerra dos Balcãs, a intervenção norte-americana e os bombardeamentos da NATO à Jugoslávia (a). E fora da Europa teremos de exceptuar a guerra dos EUA contra o Vietname, a guerra que os EUA monitorizam no Médio Oriente, a guerra do Iraque, a guerra do Afeganistão, além de outras agressões e invasões...

Artigo de Mário Tomé  

O recente anúncio da retirada das tropas espanholas do Kosovo feito pela ministra da defesa do Estado espanhol, a simpática Carme Chacón, caiu que nem uma bomba nos meios da NATO, apanhados de surpresa. Os jornais trataram a situação com uma espécie de simpática complacência devida a uma mulher que tem um quase inimaginável cargo: ministra da defesa.

Ora Carme Chacón, por uma vez na vida, disse o que tinha a dizer sem se preocupar com os parceiros que mais não fazem que abanar o rabo quando ouvem a voz do dono. O mal foi que neste caso um dos parceiros é exactamente o dono. Por isso as suas declarações «caíram como uma bomba entre os os meios oficiais da NATO, a administração americana e os meios veteranos da diplomacia».

O departamento de estado norte-americano confessou-se «profundamente desapontado com a Espanha» e a senhora Chacón remeteu-se ao silêncio, coitada, possivelmente caída em depressão. Não sei se o nosso Sócrates também manifestou o seu desapontamento ou se achou que o porta voz de Robert Gates tinha falado por nós todos, naturalmente desapontados.

Os sessenta anos da Organização do Tratado do Atlântico Norte vão ser celebrados nos próximos dias 4 e 5 de Abril em Estrasburgo.

As organizações pela paz que estão a preparar uma grande manifestação contra a NATO já foram colocadas perante as limitações que estão a ser impostas pelas autoridades francesas à liberdade de movimenos e ao direito de manifestação no centro de Estrasburgo, certamente entusiasmadas pela recente decisão de Sarkozy de passar a integrar o sistema de comando da NATO. Os promotores da manifestação exigem a saída do Afeganistão, e a saída da França do comando da NATO opondo-se assim à recente decisão de Sarkozy, questionam as brutais despesas militares quando uma crise da dimensão da actual exige tanta capacidade económica para a resposta social pública às suas consequências.

Mas que vão celebrar os altos comandos da NATO e os chefe de governo dos países que a integram? "Sessenta anos de paz sem precedentes", anunciam! Bom, dentro da Europa há que exceptuar a trágica guerra dos Balcãs, a intervenção norte-americana e os bombardeamentos da NATO à Jugoslávia (a). E fora da Europa teremos de exceptuar a guerra dos EUA contra o Vietname, a guerra que os EUA monitorizam no Médio Oriente, a guerra do Iraque, a guerra do Afeganistão, sem falar nas agressões e invasões dos EUA no Haiti, Granada, Panamá mais as que dirigiu à distância na Nicarágua, Honduras, Guatemala...

A propaganda oficial apresenta a NATO como uma organização nascida para se opor ao Pacto de Varsóvia, quando a realidade é que o Pacto de Varsóvia nasceu em 28 de Maio de 1955, seis anos depois da NATO.

A NATO nasceu como componente militar do apoderamento económico e financeiro da Europa pelos EUA aquando da realização do Plano Marchall para reconstrução da Europa arrasada pela guerra. O Tratado fundador da NATO, em substância, obriga os subscritores à cooperação e apoio mútuo em defesa de qualquer um dos seus membros que seja ameaçado ou atacado. O âmbito da sua intervenção é o Atlântico Norte e as suas margens.

Os EUA, dada a sua superioridade absoluta em todos os domínios, passaram a tutelar a antiga matriz colonizadora e asseguraram uma presença militar sem precedentes em tempo de paz, semeando a Europa de bases militares e bases de lançamento de mísseis pressionando a fronteira com os países sob tutela soviética, que na altura eram vistos como referência por parte significativa do proletariado europeu cuja luta social e polítca pressionava os governos ocidentais e obrigou às mais avançadas conquistas sociais sob a tutela política da social-democracia.

A Europa conquistada pela «american way of life», em especial a França, tornou-se um bom e submisso parceiro dos EUA na organização militar que estes tinham concretizado para controlo da própria Europa. A situação era de tal forma escandalosa que o General De Gaulle proibiu a presença de tropas da NATO em território francês.

Depois da queda do muro e a implosão da URSS, a NATO perderia a sua razão de existir. Mas a sua continuação foi assumida como um facto normal no âmbito da hegemonia norte-americana construída ao longo de décadas. Embora não queira ser muito cruel pode dizer-se que a NATO tem um papel aglutinador dos países europeus mais forte e eficaz que o Tratado de Lisboa.

Com a NATO os EUA travam as veleidades de autonomização quer da própria UE quer das potências europeias como a Grã Bretanha, Alemanha e França em termos de iniciativa política a nível internacional. A NATO constitui ainda um estimulante e um cliente adequado para o negócio dos armamentos e passou a ter o papel de cobertura institucional das aventuras militares dos EUA no caso de a ONU não lhes dar cobertura. Para tal os EUA propuseram e impuseram a alteração do conceito estratégico da NATO em Washington em 1999.

A integração de novos países até atingir o objectivo de tomar conta da fronteira europeia da Federação Russa, que passou pela ameaça do sistema antimíssil e pelo apoio à aventura georgiana na Osséssia do Norte, com a chegada da era Obama assumirá um carácter menos agressivo mas não deixa de ser uma pressão sobre os interesses, tendencialmente imperiais, da Rússia.
O petróleo e o gás continuam a ter papel fulcral na definição das estratégias, quer sejam complementares quer sejam opostas.

A primeira acção prática da NATO ao abrigo do novo conceito estratégico acordado em Washington foi precisamente a intervenção dos EUA no Afeganistão, cujo comando foi assumido pela NATO ao coordenar a ISAF (International Security Assistance Force), criada de acordo com a Conferência de Bona, a seguir ao 11 de Setembro de 2001.

A intervenção no Iraque colocou alguns problemas entre os aliados mas, afinal, de ordem secundária, apenas para salvaguardar alguns governos europeus perante a opinião pública dos próprios países. A resistência inicial da França e da Alemanha foi ultrapassada rapidamente pela aceitação das «boas» razões para aquele crime de guerra e contra a humanidade, assente numa mentira atempadamente desmontada e finalmente assumida, não afectando minimamente as relações entre os parceiros natistas.

Se a ocupação militar do Iraque pelos EUA e Reino Unido deve vir a sofrer alguma evolução positiva quanto à retirada de tropas, já a ingerência norte-americano no Paquistão e a intervenção no Afeganistão não vão sofrer alterações significativas na chamada era Obama. De facto se a nova conjuntura política veio trazer algum alívio nos dossiers mais brutais, mantém a síndrome da Al Qaeda como a melhor forma de tentar dar aos povos dos países da NATO a sensação que estão a enterrar-se no atoleiro sangrento do Afeganistão por uma boa causa que diz respeito a todos.

Como a cimeira do G-20 em Londres, a Cimeira NATO em Estrasburgo nos próximos dias 4 e 5 de Abril faz parte da inauguração da era Obama. Como em Londres quanto à finança e à economia, o projecto de resolução de Estrasburgo está orientado para deixar toda a gente satisfeita, desde a Rússia aos europeus ciosos da aparência de uma Europa com papel autónomo na sua própria defesa no âmbito de uma parceria estratégica NATO-UE. Mantendo, como não podia deixar de ser, a possibilidade estatutária ganha em 1999 de actuar em todos os azimutes, aponta para uma política de multilateralismo agora que passou a ser essa a moda nos EUA. Define-se a NATO como uma rede de agentes de segurança, jurando continuar a actuar sob a orientação e em função dos interesses da ONU (!). Como orientação estratégica o documento salienta a resposta aos novos desafios, nomeadamente o terrorismo, a proliferação de armas de destruição massiva, a segurança energética e os ciberataques, assim como a instabilidade dos «estados falhados», fora da zona coberta pelo tratado.

Se isto fosse levado a sério, a NATO devia sair da Cimeira de Estrasburgo com uma declaração de autodissolução por inutilidade óbvia. De facto: o terrorismo é uma questão de serviços de informação e sua articulação, polícias dedicadas e políticas sociais e de não ingerência. A proliferação de armas de destruição massiva é da responsabilidade absoluta das potências que integram a NATO e, para além disso, depende de políticas assentes na diplomacia e de respeito mútuo de que terão que ser excluídas quaisquer acções, intervenções ou ameaças que constituem o cerne da política imperialista e da própria NATO. Deve, aliás, começar pelo cumprimento do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, o que exige a extinção dos arsenais existentes e o não acesso de outros à arma atómica. Mas a única preocupação neste assunto é com o Irão que afinal é o único país que explicitamente cumpre o Tratado que subscreveu. A segurança energética depende de parcerias e de paz e não de intervenções armadas, como aliás se tem visto. Os ciberataques são claramente do âmbito dos avanços tecnológicos e da cooperação entre Estados. Finalmente a instabilidade dos Estados falhados tem sido provocada, estimulada e mantida pelas intervenções do imperialismo, quer através das suas redes de corrupção, dos seus serviços de espionagem ou das suas intervenções armadas.

A Cimeira vai certamente manifestar a sua preocupação com África, o continente do futuro. Para tal Portugal vai ter um papel que os nossos papalvos vão certamente classificar de muito prestigiante. Estamos pois «como dantes, quartel-general em Abrantes», ou seja, na mesma. No mundo de hoje uma aliança militar desta envergadura não passa de uma ameaça permanente por parte do imperialismo, de um instrumento da guerra infinita contra os povos.

Usando uma citação de um aforismo de Lord Ismay, feita pelo Major-General Pezarat Correia no seu «Manual de Geopolítica e Geoestratégia»: a manutenção da OTAN destina-se a manter a Europa dentro, os EUA por cima e o resto do mundo por baixo .

(a) Ver «Se a memória existe: Os dez anos dos bombardeamentos de Belgrado»

Nota: Chamo a vossa atenção para esta exemplar actuação das nossas tropas NATO de elite, neste vídeo.

Mário Tomé

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