A NATO que vá para o raio que a parta!* criar PDF versão para impressão
03-Abr-2009
Neste artigo, os autores desmontam o belicismo como código genético da NATOA NATO não se limita apenas a bombardeamentos cirúrgicos e danos colaterais, é também responsável por massacres de civis, como em Nawabad, no Afeganistão, ou pela utilização de armas proibidas pelas convenções de Genebra na ex-Juguslávia (armamento com urânio empobrecido e bombas de fragmentação)

Artigo publicado em dissent.fr, tradução de José Costa  

Os representantes dos países membros da NATO reunem-se de novo nos próximos dias 3 e 4 de Abril para festejarem certamente os 6O anos da organização e, sobretudo, para darem os últimos retoques num novo plano de « defesa das liberdades » que constitui, segundo os dirigentes desta organização, « uma grande estratégia para um mundo incerto... ».

A NATO não é apenas uma organização militaro-imperialista encarregada de espalhar o terror entre todos aqueles e aquelas que ousam contrariar o domínio americano-atlantista. Não se trata apenas de uma organização que desde 1999 intervém no exterior das fronteiras dos países membros por razões defensivas ('Out-of-area') mas interfere também em conflitos onde nenhum dos países membros é atacado ('Out-of-Defence'), levando a paz e a democracia através do cano da espingarda ou da mira de um bombardeiro.

A NATO não se limita apenas a bombardeamentos cirúrgicos e danos colaterais, é também responsável por massacres de civis, como em Nawabad, no Afeganistão, ou pela utilização de armas proibidas pelas convenções de Genebra na ex-Juguslávia (armamento com urânio empobrecido e bombas de fragmentação)

A NATO não é apenas uma organização que através de operações humanitárias ou de guerra anti-terrorista, tenta impor os seus valores à custa de destruições e de sofrimentos que favorecem a emergência de resistências e de inimigos que, em seguida, pretende combater.

A NATO é sobretudo uma organização política que em nome da chamada « segurança colectiva global » se serve da guerra e do seu poderio militar para defender e impor os interesses privados de um punhado de ricos e poderosos (ocidentais) no seio de uma mundialização capitalista na qual eles são os principais beneficiários.

A caminho de uma globalização da segurança

Com a finalidade de garantir a segurança no interior desta mundialização e de legitimar a extensão do seu papel de organização colectiva de defesa, a NATO procura amalgamar os conceitos de segurança interior e exterior ao apresentar como prova hipotéticos inimigos e potenciais focos de insegurança, tais como :

- a instabilidade em países em torno da zona euro-atlântica, que justifica o desdobramento de soldados nos nossos territórios;
- o afluxo de refugiados (políticos e climáticos, ...) que conduz ao reforço das fronteiras;
- o tráfico de armas ou de tecnologias nucleares, biológicas e químicas;
- os activistas ou ciber-terroristas.

Permanece, no entanto, a questão : em que medida a política da NATO ou dos seus membros é responsável pelo aparecimento de novos inimigos ou de novas ameaças... ?

Terrorismo político ou religioso, sabotagem, crime organizado, figuras emblemáticas do inimigo interior ou exterior, podem ser ajustadas a quem quer que seja, a partir do momemento em que não se respeite as regras do jogo; incluem-se neste caso os migrantes, os contestatários ou ainda as vítimas da apropriação forçada das suas riquezas. O conceito de « i-war » é revelador desta dinâmica, já que, « qualquer pessoa que tenha acesso à Internet é uma ameaça potencial que deve ser vigiada » (declaração final da Cimeira de Riga, 2006).

Gradualmente, a NATO arrogou-se um papel intervencionista sobre um território cada vez mais extenso. A declaração final da cimeira dos chefes do Governo de 22 de Fevereiro de 2005, rematava desta maneira: « Contamos reforçar o papel da NATO enquanto fórum de consulta e de coordenação entre os Aliados sobre questões estratégicas e políticas e reafirmamos o nosso papel enquanto fórum essencial de consulta entre a Europa e a América do Norte sobre questões de segurança. » Esta visão torna, evidentemente, obsoleta qualquer distinção entre segurança interior e exterior.

Um instrumento internacional de controlo das populações

A estabilidade deste modelo de organização só poderá ser obtida através de um crescente controlo social : registos individuais, retenção de dados, controlo das fronteiras, sistemas de vídeo-vigilância, UAVs (aeronaves não tripuladas), tecnologias biométricas, etiquetas de tecnologia RFID (que podem conter dados de identificação e sere lidos à distância), prisão preventiva, etc.

Com o pretexto de assegurar a segurança das populações, este meios tecnológicos têm sobretudo como objectivos evitar qualquer tipo de contestação.

Actualmente, a luta anti-terrorista e a colaboração judicial constituem tarefas principais da União Europeia. Com a criação do próximo Conselho dos ministros do interior da NATO, os EUA tornar-se-ão um actor importante da política europeia de justiça. Se até agora os países europeus o têm abordado como um problema judicial e policial, os EUA consideram, por exemplo, o terrorismo como um problema militar. Nesta óptica, desenvolver uma linha comum implica pois, a integração de uma visão militar que trará novos problemas em matéria de defesa das liberdades.

Estão no mesmo caso os aviões radar AWACS da NATO que serão a partir de agora utilizados para a protecção dos encontros e cimeiras e de manifestações desportivas; durante o G8 de 2007, aviões de combate e tropas terrestres já tinham sido utilizados para controlar os manifestantes.

O conceito de segurança global defendido pelos países membros da NATO permite obter a submissão social e favorecer uma estruturação autoritária das nossas sociedades. Encaminhamo-nos desta forma para o totalitarismo, já que a supressão da distinção entre polícia e forças armadas constitui uma das etapas essenciais desse percurso!

A cimeira de Estrasburgo nos próximos dias 3 e 4 de Abril será não só uma ocasião para a NATO confirmar a sua posição actual, mas permitir-lhe-á também definir as funções que a organização poderá assumir nos próximos anos.

A gestão dos riscos ligados às mudanças climatéricas, nomeadamente à rarefacção dos recursos energéticos afigura-se uma das prioridades actuais.

Quem beneficia com a crise ecológica?

A pretexto de participar no desafio que as mudanças climatéricas representam para as nossas sociedades, a NATO põe à disposição dos seus membros a sua força militar e tecnológica para defender os recursos naturais, que usurpam paulatinamente.

Uma subida do nível médio do mar alterará não só a organização das fronteiras actuais e a repartição da população, como também as vias de circulação dos bens e dos recursos energéticos que será necessário assegurar com vantagens para os países da NATO. Nesta perspectiva é essencial continuar a garantir o abastecimento de recursos energéticos que são indispensáveis à perenidade de um sistema fundado num consumo exagerado.

De igual modo, os países da NATO não poderão permitir aos países produtores de energia que utilizem as suas fontes como meio de pressão política que ponha em causa a supremacia dos países da NATO. Tal pressão pode gerar conflitos profundos, e já se fez sentir sobre os principais países produtores como a Rússia e o Irão que asseguram, entre outros, 60% da produção mundial do gás.

O empobrecimento dos recursos essenciais (água potável, terras cultiváveis, fauna, flora e matérias primas) e energéticos levará a numerosos conflitos e ninguém duvida que a NATO intervirá se os seus interesses estiverem ameaçados.

Os países membros parecem prestar pouca atenção à questão das futuras vítimas destas perturbações climáticas salvo no que diz respeito ao reforço dos controlos fronteiriços. Com efeito, a NATO já participa activamente no desenvolvimento militar da FRONTEX (forças armadas financiadas por fundos europeus e que têm como objectivo, desde 2005, gerir as fronteiras exteriores da União Europeia) e intervém inclusivamente nas fronteiras exteriores dos nossos territórios; dispõe de campos de retenção em todos os países da costa mediterrânica, com excepção da Argélia, e considera os migrantes como uma ameaça de que nos devemos proteger.

Nisto a NATO não faz mais que preparar-se militarmente para a gestão das consequências e procura, antes de mais, meios para minimizar ao máximo as repercussões e riscos que tal situação representa para esta organização. O problema das mudanças climatéricas não é visto segundo parâmetros ecológicos ou sociais mas unicamente em termos de segurança, contra as quais é necessário proteger-se.

Deste modo, os países membros da NATO participam na manutenção de um sistema que é, ao mesmo tempo, a causa do problema!

Para a frente e novas guerras!

Na cimeira de 3 e 4 de Abril em Estrasburgo, os países membros discutirão igualmente a reforma do sistema do funcionamento interno da NATO. Actualmente, as decisões são aprovadas por unanimidade, o que implica que um só país possa bloquear uma decisão da NATO. Várias propostas foram formuladas para permitir uma « abstenção construtiva » ou para introduzir um processo de tomada de decisão por maioria. Combinado com o financiamento comum alargado, uma tal modificação poderia significar que qualquer país deve participar militarmente e financeiramente numa operação de guerra prolongada, à qual não adere ... Tais laços transatlânticos prefiguram um estrangulamento que torna impossível qualquer escolha política.

Pouco a pouco, a NATO exclui qualquer fonte de oposição política, passando por cima das decisões da ONU ou até da Comunidade Europeia. As discussões do Conselho de Segurança serão reduzidas a um simples exercício formal para legitimar uma decisão ou uma operação da NATO. Se a Rússia ou a China se oposerem, será grande a tentação de intervir unilateralmente no quadro da NATO.

A NATO representa neste momento 75% da potência militar mundial. Os países excluídos da NATO ver-se-ão confrontados com uma aliança militar que os poderá apontar como um « problema de segurança » e quererão defender-se. O resultado mais provável será uma nova corrida aos amarmentos, entre os quais os nucleares, e uma militarização a grande escala das relações internacionais.

De 1 a 5 de Abril 2009 estaremos pois em Estrasburgo contra a « mundialização pela força » e apresentaremos as nossas acções de resistência, debates, uma aldeia autogerida, centros de convergência, artes autónomas, concertos, ...

Porque um exército será sempre sinónimo de « morte » e não de « liberdade »:

resistamos à NATO!

* Nota do tradutor: O titulo francês faz referência a "Autant en emporte le vent" (Gone with the Wind - E tudo o vento levou). Este jogo fonico entre autant/OTAN não funciona em português, daí a tradução livre escolhida.

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