Fantasmas, acudam!!! criar PDF versão para impressão
21-Nov-2006

violante_saramagomatos.jpgQuando alguma coisa fazia a minha mãe ficar de boca muito aberta de espanto, era costume ouvi-la dizer Fantasmas, acudam! Assim estou eu com a TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário).
Confesso que só há dias um artigo de jornal me chamou verdadeiramente a atenção, mas fiquei de cabelos em pé.

Desde os tempos em que estudei no Liceu até quando acompanhei dois filhos fui-me ‘adaptando': entre outros, o sujeito e o predicado passaram a sintagmas nominal e verbal. Nunca percebi bem porquê, mas era assim.

Porém agora a minha ignorância é total. Cão já não é um substantivo, masculino, singular; passou a nome comum, contável, animado e não humano.

E rocha? Um nome comum, contável e inanimado? O factor humano entra ou não?

E bactéria? Será um nome comum e contável? Animado ou inanimado? É que há bactérias móveis e outras imóveis. Em que ficamos? 

E girassol que, para só para baralhar a TLEBS, tem fototropismo? E o que será fototropismo?

Prezo o uso da linguagem como um meio essencial de comunicação. Presumo que o grande objectivo da disciplina de Português é precisamente ensinar a utilizar bem esta ferramenta para falar e escrever, criar gosto pela leitura e incentivar o consumo e a compreensão dos livros. Creio que a melhor receita é torná-lo simples e aliciante.

Desde a minha escola muita coisa mudou. Mas não me parece que, com esta procissão de ministros, haja melhores resultados. Que a primeira preocupação de cada um que chega é deitar fora o que o anterior deixou!

Não defendo a divisão de orações em Os Lusíadas - prática corrente nos tempos em que a 6ª edição da Porto Editora era escrita e anotada a lápis. Mas acho mil vezes pior que se opte por versões resumidas, simplificadas ou aos quadradinhos, tipo banda desenhada, dos autores. Não é assim que se aumenta a cultura nem cria o gosto pela leitura.

Mas a verdade é que quem faz opções de facilitismo barato, que trata os jovens estudantes como se fossem criancinhas ou atrasados, é o primeiro responsável pelos actuais resultados.

Saiu de moda chamar ao verbo o predicado da oração, e ao substantivo o sujeito. Vem agora a TLEBS com nomes animados e não animados. E, como se o mundo girasse à volta do nosso umbigo, humanos e não humanos. Complicam-se designações e classificações. Para quê? Os nossos jovens comunicam melhor agora? Lêem mais do que liam? Escrevem melhor do que antes? O ensino da nossa Língua é hoje mais eficaz?

As sucessivas reformas pioraram a qualidade da aprendizagem da Língua. Com tudo o que vem atrás.

Porque é que em vez de os responsáveis ministeriais se perderem em elucubrações académicas não encaram este assunto como o primeiro grande problema a resolver em matéria de INSTRUÇÃO?

Já algum responsável ministerial, e têm sido às dezenas, se sentou no seu gabinete e pensou: Mas porque é que esta malta lê tão pouco?

Já algum responsável ministerial, passado e presente, pensou em ir até uma escola, durante o intervalo, e ouvir como se fala? Então vá e talvez perceba como há muito a fazer. Mas não é com a TLEBS que se chega lá.

Já agora e a propósito - o que será, segundo a TLEBS, um(a) ministro(a) da educação?

Aceitam-se sugestões...

Violante Saramago Matos

 
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