Romano Prodi & os créditos de Bush criar PDF versão para impressão
08-Jul-2006

Jorge CostaCom a multiplicação das desgraças nas frentes da “guerra ao terrorismo”, o Afeganistão tem ficado na sombra do palco informativo. Não é que se trate de um oásis, face ao descalabro do Iraque ou aos desmandos israelitas na Palestina. Quase cinco anos depois do início da operação “Liberdade Duradoura”, o Afeganistão é governado por um empresário petrolífero com dupla nacionalidade afegã e norte-americana, cuja autoridade não chega aos subúrbios da capital.

A prolongada ocupação norte-americana e europeia forneceu argumentos e apoio à guerrilha talibã, que recuperou a ofensiva. Os senhores da guerra locais restabeleceram o domínio sobre os campos de ópio. É certo que, nos últimos 30 anos, a situação ali nunca foi muito diferente. Mas hoje é agravada pela ocupação estrangeira, origem de boa parte da mortandade e dos abusos de direitos humanos. Com a atenção dos media concentrada noutras paragens, estes são crimes pouco ditos.

Em vésperas de eleições para o Congresso, pressionado para fazer regressar tropas, George Bush precisa da NATO para obter algum alívio onde as coisas correm mal. É por isso que o Afeganistão se tornou no grande tabu dos governos social-liberais europeus. Em Dezembro passado, Sócrates aterrava em Cabul. Ali morrera há pouco um militar português e o primeiro-ministro pintava as cores do heroísmo sobre a vergonha da presença portuguesa. Ainda Luís Amado não chegara a ministro, já o governo socialista sossegava Washington sobre os seus bons prétimos futuros.

Chega agora a vez de Romano Prodi. Disputando o governo italiano à cabeça de uma ampla coligação do centro e da esquerda, o antigo presidente da Comissão Europeia preferiu esquecer o Afeganistão no seu programa eleitoral. Percebe-se porquê: Prodi foi a votos reunindo a expectativa de um dos mais potentes movimentos anti-guerra do mundo, o italiano, para agora seguir para Cabul com George Bush. Já eleito, deverá manter ali uma despesa de 160 milhões de euros e uma presença de quase 2000 militares.

Mas o caso italiano é mais complicado. Para a aprovação dos créditos da guerra afegã, Prodi não dispensa o apoio da ala esquerda da maioria governamental, para quem a participação na ocupação do Afeganistão significa a renúncia ao compromisso contra a guerra, «sem ‘ses’ nem ‘mas’». Sem consenso político, Prodi quer forçar a unidade da coligação através de uma moção de confiança, acenando com a queda do governo. A alternativa, especula a imprensa, poderá ser a viragem para o centro-direita e a reconfiguração da sua maioria em estilo ‘grande coligação’.

Prodi quer mostrar quem manda e na esquerda alternativa prepara-se a cedência. Em editorial, o diário do PRC escrevia há dias que “quando se faz política e se aceita fazê-la a um nível muito alto dentro das instituições, não se pode apenas enunciar princípios e intenções: é necessário assumir todo o percurso político que se quer escolher”. Em contrapartida, vários deputados e oito senadores - dos Verdes, Comunistas Italianos e da Refundação Comunista - já anunciaram o seu voto contra o plano afegão do governo. Afinal, é Prodi que cola o seu destino à expedição afegã. Na esquerda alternativa, há quem não esqueça os últimos cinco anos e os milhões de cidadãos pela paz. Para estes, a questão é outra: esquecidos os tais “princípios e intenções”, o que resta da política?


 

 
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